Revista Mandala

Precisamos falar sobre o luto e precisamos fazer isso com amor

Como receber a visita da morte de uma maneira mais amorosa e consciente?

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A história da morte e a história da cobra são muito parecidas. Tanto a morte quanto a cobra são vistas de formas distintas no Ocidente e no Oriente. Tanto uma quanto outra foram alvo do julgamento mitológico de incontáveis gerações humanas. A cobra, representação oriental do recomeço, da troca de pele, do ciclo eterno, é sinônimo de medo, dor e veneno em alguns outros lugares. Assim também é com a morte.

Mas qual a parte da racionalidade humana nesse processo de transformar a morte em algo ruim? Por que ainda nos apegamos tanto a dualidades, às limiares lógicas que existem entre o que chamamos de prazer e o que chamamos de dor?

De fato, perder alguém querido é uma dor. Das grandes. E provavelmente você já teve que estar no mesmo quarto que ela um dia. É uma apresentação difícil de ser feita e nem sempre pode ser pré-anunciada. Gustavo, 26, por exemplo, perdeu o irmão subitamente há dois meses e ainda procura lidar com a sensação de falta. “A vida muda muito”, ele diz. “O choque de realidade é avassalador”.

Como, então, podemos encarar esse momento de uma forma mais sóbria e consciente, para que a avalanche caia como uma possibilidade de reconstrução?

O sentido da vida é o sentido da morte

Em uma palestra ao TED Fortaleza, a psicóloga Sarah Vieria fala que, apesar de todas as teorias existentes sobre tudo, nenhuma delas parece capaz de explicar o luto. “Freud, Jung, Elizabeth Kübler-Ross, Parkes, blá, blá blá… Um monte de gente fala sobre o luto, mas a experiência de viver o luto é única”.

De acordo com Sarah, isso acontece porque o luto é como o amor: uma experiência viva. Além disso, ela diz que este processo é um resultado do lugar onde você vive e da cultura que você absorve.

A coordenadora de psicologia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, Ana Merzel, ressalta que tudo tem a ver com os significados que damos para os processos que passamos em vida. “Na cultura ocidental, morrer é sinônimo de finitude, ruptura, perda, separação”, ela observa.

Para Ana, que trabalha auxiliando pacientes e familiares a lidarem com temas como enfrentamento, despedida e luto no contexto hospitalar, a ideia que se tem ao se perder alguém próximo é de que se está encerrando uma fase do relacionamento com aquela pessoa.

Gustavo, por sua vez, acredita na renovação, apesar de ainda estar assimilando a ausência não anunciada do irmão. “Confesso que só parei para pensar sobre a efemeridade da vida depois do que aconteceu”, ele conta. “Somos um grão de areia no deserto e as areias mudam”.

Essa perspectiva pode transformar tudo. “Nós somos racionais e temos necessidade de explicações”, afirma Ana. “Quando atribuímos um sentido para as experiências fica uma pouco mais fácil passar por momentos de saudade”.

Afinal, sentir a ausência de alguém que amamos não é fácil. Para Sarah, ninguém está preparado para isso e é muito evidente que o amor e o luto são duas faces de uma mesma moeda: “A única forma de não sofrer é não amando”, ela diz em sua palestra. “Se você não ama, você não perde. Mas se você quer amar, o preço é a possibilidade de perder”.

A espiritualidade no processo de compreensão

Em parceria com a Kaiser Family Foundation, foi realizada uma pesquisa com pessoas de quatro países (Itália, Brasil, Estados Unidos e Japão) que vivenciaram a perda de alguém próximo. Ao falarem sobre o que sentiram, ficou muito claro que a espiritualidade tem um papel decisivo nesse momento, inclusive da parte de quem sabe que está perto de morrer: 83% dos 1.200 brasileiros entrevistados afirmaram que a religião influencia diretamente na sua ideia sobre o que gostariam de viver no final da vida.

Para Gustavo, existe um lugar onde Deus “hospeda todos que já se foram desse mundo”. Ele conta que essa concepção o ajudou muito, inclusive a perder o medo da sua própria morte. “Não sei se tenho mais tanto medo de morrer assim”, diz.

Mas por que temos tanto medo de morrer, para começar? E por que temos tanto medo de falar sobre isso? Será possível entender a perda se não falarmos sobre o que ela nos causa?

Nós podemos e precisamos falar sobre a morte

“É engraçado como não falamos da morte corriqueiramente”, observa Roberta, 24, cuja amiga Fati faleceu subitamente ainda muito jovem. Roberta teve uma história muito particular de luto, pois construiu uma amizade à distância muito forte e de muitos anos com Fati, que morava em outro estado e faleceu pouco antes do dia em que elas finalmente se conheceriam.

Mas elas se conheceram muito ainda assim. E hoje Roberta fala sobre o assunto com serenidade, pontuando conscientemente os altos e baixos da sua experiência. Ela trata o tema com naturalidade, e é essa a perspectiva que muitos profissionais da saúde acreditam que deve ser utilizada.

Como Sarah ressalta em sua palestra no TED, o luto está se encaminhando para ser classificado como uma doença mental. Ao invés de ser visto como algo natural, que precisa ser vivenciado de forma legítima, completa e consciente, ela conta que há grandes chances de, ainda nos próximos anos, mais esta manifestação humana ser alvo de um processo que ela chama de “patologização”.

Por isso, as histórias sobre a cobra e sobre a morte se parecem tanto. Ao conversar sobre o luto, podemos “desvitimizá-lo” assim como podemos desmistificar a ideia de que uma cobra representa maldade apenas porque nossa cultura nos disse que era assim. Segundo algumas crenças antigas chinesas, a cobra é a representação da capacidade de viver diante da morte.

Temos que olhar com mais atenção para a maneira como tratamos esses conceitos. Segundo a psicóloga Érica Araújo, o período de desorganização e desespero do luto é subjetivo, muda de acordo com as crenças, os valores e as culturas de cada um, mas ainda assim é um tabu em muitos contextos. “A maioria das pessoas tem receio de falar sobre esse assunto”, ela observa. “Debater sobre a morte é saudável, nos prepara para uma realidade que não podemos modificar. A finitude ainda é um assunto que assusta as pessoas”.

Ana concorda. “Temos que falar sobre o que queremos deste momento”, ela diz. “Como a medicina se desenvolve periodicamente, hoje se pode prolongar a vida. Mas o questionamento em algumas situações deveria ser em relação ao que estamos prolongando: a vida ou o tempo da morte chegar?”

Pessoas que se questionam sobre isso começaram a se juntar em todo o mundo. Projetos como o Vamos Falar Sobre o Luto? são exemplos magníficos disso. Assim também surgiram os chamados Death Cafes, grupos que organizam eventos onde seus membros podem conversar sobre a morte enquanto comem um pedaço de bolo e tomam chá. Afinal, como é possível naturalizar um tema se nos portamos tensos e inquietos ao falar dele?

Com consciência, autoconhecimento e reflexão coletiva os tabus podem ser destruídos, revistos ou transformados. Érica conta que muitos pacientes e familiares relatam sentir medo do desconhecido, e acredita que é preciso debater o tema para desconstruí-lo. “Apesar da morte estar sempre presente e ser a única certeza que temos na vida, ainda é considerada uma ameaça, algo que assusta”, ela conta. “Creio que uma das formas de encarar um evento como esse seria aceitar a finitude como algo normal de ordem natural. Entender que tudo tem um fim, que nada é para sempre”.

Mas, depois de tudo isso, como lidar melhor com o luto?

Nós não temos essa resposta. Mesmo porque, como apontaram todas as especialistas mencionadas nessa reportagem, essa experiência é pessoal, subjetiva e incomparável. O segredo, no entanto, se é que há um, talvez seja não se apegar a nada: nem ao sofrimento nem à superação. Se possível, buscar (re)conhecer a dor, vivenciá-la, pois ela é importante, mas também buscar entender a impermanência.

Cada um passa por isso de um jeito e cumpre essa jornada à sua maneira. Ao que parece, não há uma forma melhor ou pior de vivenciar o luto. Faz parte. Vai acontecer com todo mundo. E não precisa ser demonizado, como uma doença, nem coroado, como uma constante apologia à tristeza.

Gustavo acredita que a dor de não ter mais o irmão e a forma como tudo aconteceu sobrevoa sua cabeça neste momento, mas ele também pensa que ela vai voar para longe um dia, seguir as novas massas de ar que chegarão. Para Roberta, cuja perda também foi brusca, foi necessário um ano até começar a admitir os sentimentos que a rondavam. “Até então eu me fazia de forte. Foi quando eu entendi que a vida é passageira mesmo”, conta ela. “Não se cumpre protocolos impostos: crescer, ter uma profissão, namorar, ter filhos… Quem sabe a vida é por si só viver”.

Roberta foi tentada por pensamentos que a conduziram a uma perspectiva turbulenta no começo. Mas depois, com o tempo, compreendeu que as pessoas vivem o que deve ser vivido, que não há um roteiro ou uma regra sobre a data e a forma de partir. “Ao perceber que minha frustração era muito forte sobre o quanto Fati tinha para viver, o quanto ela poderia ir longe, o quanto tantas coisas ficaram incompletas, comecei a repensar…”, relata. “Percebi que deveria olhar ao contrário, que as pessoas têm um tempo na Terra. Elas morrem, independente da idade. Comecei a nutrir o sentimento de gratidão”.

Fati viveu, como conta Roberta, seus 23 anos de forma intensa. E fez tudo o que tinha que fazer. Talvez aí esteja a chave para o entendimento sobre essa questão, o giro que a cobra dá em torno de si mesma para se redescobrir. Pense, neste momento, em quem você ama e que se foi. Talvez essa pessoa tenha partido ainda bebê, talvez na infância, talvez na juventude, ou talvez tenha vivido mais anos do que eu e você juntos…

Mas não é isso que importa. Seja lá por quanto tempo essa pessoa fez a diferença na sua vida, é o momento de se deixar preencher pela imensa gratidão que você sente por ter tido o privilégio de compartilhar ao menos cinco minutos da sua existência com a existência dela.

E também é o momento de começar a entender que, um dia, alguém fará esse mesmo exercício pensando em você.

Ana Claudia Quintana Arantes: “Ponderar sobre a morte traz mais lucidez sobre suas escolhas”

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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