Revista Mandala

Punta del Diablo no inverno: quando acaba a alta temporada, o silêncio faz ouvir

Não havia corpos bronzeados pela orla, mas encontrei algo magnificamente mais forte no litoral norte do Uruguai em agosto.

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Duas da manhã. Chuva, frio, noite. A estrada sempre se manifesta na gente quando a gente se manifesta nela. Depois de uma longa jornada de 16h, lá estávamos nós em algum lugar do Uruguai, dois viajantes um pouco assustados após uma série de surpresas. O ônibus nos deixou numa via de asfalto a 5km do povoado onde sabíamos que havia um hostel esperando nosso check-in. Nós nunca antes ansiaríamos tanto por um check-in.

Punta del Diablo se localiza no litoral norte do Uruguai e pertence ao departamento de Rocha.

Chegar em Punta del Diablo foi uma experiência de resolução, daquelas que ensinam enquanto se divertem com nossa capacidade de resiliência. Lá, no meio da noite e sob a garoa gélida do inverno no litoral uruguaio, eu e minha amiga Katiusca (também jornalista na busca de algo maior) nos vimos em um cenário hitchcockiano assim que descemos do ônibus com nossas mochilas enormes e tudo o que a gente queria viver naquele país que nunca havíamos visitado.

Em Punta del Diablo, assim como nas cidadezinhas do interior de Minas Gerais onde eu cresci, as pessoas sabem nome e sobrenome de cada um.

Verdade seja dita, esperávamos uma recepção diferente. Mas nenhuma poderia ter sido mais forte e mais memorável. As casas de madeira possuíam sombras soturnas, a temperatura estava próxima dos 5°C e a névoa nos abraçava como um banho de redenção, exigindo que nos tornássemos mais humildes antes de entrar em suas propriedades. Naquele momento, quando percebemos que estávamos perdidos entre ruas numeradas que se cruzavam noite adentro e nos conduziam à inércia da aflição, começamos a entender que Punta del Diablo seria um daqueles lugares que faz a gente ter uma noção ampla da vida em sua expressão de criatividade mais visceral.

 

Vieram as primeiras lágrimas, os sentimentos que a gente tem que aprender a ignorar para colocar um pé depois do outro sem hesitar, e um longo dobrar de esquinas repleto dos elementos emocionantes dos filmes de terror que, quase duas horas mais tarde, nos levou ao lugar onde finalmente conseguimos descansar. Na manhã seguinte, porém, o povoado de 600 habitantes no departamento de Rocha se revelou outro, como se tivesse trocado totalmente de roupa para uma nova ocasião, uma cerimônia muito mais suave e mais bonita de recebimento.

Mas ainda estava frio para ca#@!%.

No único mercadinho do vilarejo, compramos frutas e verduras, surpresos com o valor (muitas coisas que somos acostumados a ter no Brasil são mais caras no Uruguai por causa da agricultura do país, que é diferente daqui). Passeando pela praia e sua água gelada, fomos seguidos por uma matilha de cachorros que, na noite anterior, haviam provocado um belo escândalo com a nossa aparição. Os estranhos também têm todo o direito de nos estranhar, em especial quando chegaram primeiro.

Ao final do primeiro dia em Punta del Diablo, bateu a curiosidade que nos perseguiria por todas as cidades do Uruguai: como seria se fosse verão?

No verão, me disseram, essa praia fica como um estádio lotado. À esquerda, o caminho para o Parque Nacional de Santa Tereza.

Nós já havíamos ficado sabendo que não tinha muito o que ser feito nas pequenas comunidades da costa uruguaia no inverno. Por ser um país muito pouco populoso (3,5 milhões de habitantes, dos quais mais da metade vive em Montevidéu), os povoados não costumam possuir mais do que mil habitantes. No verão, porém, a exuberante região litorânea que estávamos contemplando em seu esplendor frio e branco se torna, segundo relatos, um turbilhão de corpos bronzeados emanando energia viva. No inverno, um ou outro humano em movimento pelas ruas de terra.

Isso, no entanto, foi justamente o que me chamou a atenção para a potencialidade humana daquele lugar. Em Punta del Diablo, assim como nas cidadezinhas do interior de Minas Gerais onde eu cresci, as pessoas sabem nome e sobrenome de cada um que habita o mesmo espaço que ela, que se alimenta dos mesmos cultivadores, que conhecem as mesmas experiências locais que cada lugar oferece em sua particularidade.

Percebi, inclusive, que a população local parecia estar em retiro. Afinal, depois de três meses de movimentação constante em suas casas, as pessoas queriam paz e silêncio. Todo mundo merece um descanso pós-alta temporada. E esse descanso estava lá, estampado na forma da brisa fresca que ricocheteava entre as casinhas silenciosas, muitas delas vazias, e dos barcos ancorados ou sobre a areia com nomes como “Ana Carolina” e “Selena”. Cada coisa me fazia pensar em sua trajetória até nosso encontro.

Num píer de rochas entre as quais as ondas espumantes e densas do mar uruguaio se chocavam, casas abandonadas guardavam arte contemporânea. Vários grafites coloridos e repletos de mensagens e beleza nas paredes descascadas onde muitos artistas já haviam se expressado com a mesma gana que me movera até ali: a de pertencer.

Estar em Punta del Diablo no inverno, muito além do que uma experiência turística, foi uma expansão mental. A praia tem outros tons e outros sons quando está deserta, quando sua água está mais espessa por causa do frio, quando os pinguins se decompõem em suas areias úmidas e escuras por semanas a fio sem ninguém se dar conta. Nesse cenário reside uma inspiração magnífica para o olhar interno.

Se você quer se conectar consigo mesmo, Punta del Diablo no inverno pode ser uma opção surpreendente. Mas lembre-se de respeitar quem já faz isso todos os dias, naturalmente, naquele mesmo lugar onde você está apenas de passagem. Quando todos os turistas se vão e a energia da alta temporada pega carona com eles, poucos são os que ficam e zelam por aquele espaço especial.

No auge do frio, quando a temperatura gira em torno dos zero graus, não tem agitação, festa ou suor. Ficamos apenas alguns dias, mas foi o bastante para eu entender muito sobre as coisas que nos constroem antes, durante e depois de qualquer lugar novo que se visita. Encontrei algo tão originalmente belo que as lembranças serão frescas por muito tempo ainda.

Não havia multidões afoitas nem a energia sexual do verão rondando as casas e os bares, é verdade. Aliás, as casas e os bares estavam tão vazios que se não tivessem portas não faria diferença alguma. Mas tudo bem, não vimos nada de errado nisso. É que Punta del Diablo no inverno não é para entrar em outros lugares – é para entrar dentro de si.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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