Revista Mandala

Quantas vidas eu já vivi?

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Distintas correntes filosóficas e religiosas explicam ou rejeitam às suas respectivas maneiras a existência de vidas passadas. Mas é preciso entender do que se trata a “teoria” da reencarnação e, para isso, a Revista Mandala traz a explicação de uma das religiões mais populares a defendê-la: o Espiritismo. Afinal, já tivemos outras vidas antes dessa?

Pergunta difícil para quem procura uma única resposta. Em um mundo com mais de 10 mil vertentes religiosas, a perspectiva sobre reencarnação varia de acordo com nichos culturais, sociais e até históricos. Isso porque no continente americano, por exemplo, onde o xamanismo era a religião em vigor no tempo anterior à colonização europeia, houve um processo intenso de evangelização por parte dos colonizadores católicos, processo esse que gerou uma transformação em todo o continente nos dias de hoje. Segundo uma pesquisa realizada pela Hello Research em 2015, a maioria da população do Brasil, região nativamente indígena e de crenças voltadas para a observação de vidas passadas e ancestralidades, é católica ou evangélica, duas correntes que admitem a possibilidade de apenas uma vida terrena. Ou seja: é importante observar que também estamos em processo constante de construção e absorção histórica das nossas verdades.

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Por isso, talvez, a curiosidade sobre reencarnação gire também em torno de um contexto intrapessoal que depende mais da religiosidade que da religião. Atualmente, uma das doutrinas mais conhecidas entre as que admitem a existência de vidas passadas é a do Espiritismo, codificada pelo francês Allan Kardec. Mas, como nos esclarece César Teixeira, que é estudioso da Doutrina Espírita, a reencarnação não é uma invenção kardecista:

A ideia da reencarnação é muito antiga, fazendo parte da tradição cultural e religiosa dos povos que constituem a humanidade terrestre. Presente na Índia, desde remotíssima antiguidade, de que nos dão notícias os Vedas e o Bhagavad-Gitâ. Presente na civilização persa e egípcia, sendo que o povo egípcio considerava a Metempsicose ou reencarnação do espírito humano em forma animal. Foi Pitágoras quem a introduziu na cultura grega. Sófocles como Aristófanes adotaram a crença da Reencarnação. Platão, divulgou-a, fundamentando o seu ensino nas informações pitagóricas. Posteriormente, os neoplatônicos, tais Origenes, Tertuliano, Jâmblico, Pórfiro, discípulo e herdeiro de Plotino, consideravam a reencarnação como sendo o único meio capaz de elucidar os problemas e enigmas com que defrontavam no exame da Filosofia e na interpretação das necessidades humanas. Virgílio e Ovídio, os eminentes pensadores romanos impregnaram-se das suas excelentes lições, difundindo-as largamente. Os druidas apoiavam todos os seus ensinos na justiça da Palingenesia. Os hebreus aceitavam-na, adotando-a sob o nome de Ressurreição, de que a Bíblia nos dá reiteradas confirmações. Nas experiências medievais, em que a cultura se deteve estagnada, fez-se que desaparecesse temporariamente, apesar de cultuada por alguns raros estudiosos, para que Allan Kardec, ainda pela revelação dos Espíritos, novamente a trouxesse à Terra.

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Revisitando um passado muito distante

Muitos têm interesse em experimentar as famosas regressões para terem acesso aos acontecimentos de vidas passadas, bem como para descobrirem como era seu corpo, sua voz, sua família, em outro tempo e lugar. De acordo com João Rabelo, Diretor de Comunicação da Federação Espírita Brasileira (FEB), todas as nossas vidas passadas e tudo o que aconteceu nelas fica registrado no chamado éter universal. “No entanto”, ele adverte, “a escala de reencarnações é quase infinita”. Além disso, João conta que a revelação de detalhes sobre as vidas passadas não obedece a curiosidade das pessoas, simplesmente, mas uma causa nobre que mereça essa informação.

César, que é também coordenador de grupos de estudos e integra o Movimento Espírita da Região dos Inconfidentes, em Minas Gerais, também menciona que se lembrar de experiências tão passadas não pode ter a ver com uma investida do ego, mas do Divino. “Na atualidade possuímos como medicina complementar a Terapia de Vidas Passadas e o seu valor terapêutico”, ele conta. “Mas a Doutrina Espírita sugere cautela na procura dessa alternativa e recomenda a busca de profissionais qualificados para esse fim”.

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Mas, afinal, por que reencarna-se?

É uma necessidade do Espírito, como conta João. A reencarnação, de acordo com a visão da Doutrina Espírita, “é a manifestação da Justiça Divina que a todos oferece oportunidades de evolução e superação de débitos e/ou equívocos de reencarnações anteriores”, ele explica. Ou seja: estaríamos em constante processo de aprendizagem e reparação. Entra vida, sai vida, seríamos capazes de evoluir ou regredir de acordo com nossas ações.

Isso pode soar familiar porque, como César mencionou anteriormente, a ideia de reencarnação é muito antiga e pertence a muitas correntes religiosas, como as do Budismo. E é quando nos deparamos com a expressão carma, que, em sânscrito, vem de karma e significa “ação”. De acordo com muitas religiões, ela pode ser definido como uma lei de retorno, semelhante àquela Lei de Newton que prescreve que “tudo que vai, volta”. Segundo César, inclusive, a Doutrina Espírita não utiliza a palavra “carma” em si, mas a expressão Lei de Causa e Efeito, que ele diz ser mais profunda.

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O motivo de se reencarnar, portanto, seria para que pudéssemos usufruir de novas chances de fazer o certo e o bom. João chama o carma também de “compromisso espiritual” e explica que ele “pode, na reencarnação, determinar a forma do corpo (belo ou não), inteligente ou não, com limitações físicas e/ou intelectuais”. Além disso, a relação do indivíduo com sua família também seria uma herança do Espírito em suas experiências anteriores.

Para aqueles que acreditam na reencarnação, o conhecimento dos feitos, das formas e dos caminhos de vidas passadas possivelmente atrai. A curiosidade pode ser vista, antes de tudo, como uma aliada para o alcance de uma sabedoria e de uma consciência maiores nessa vida presente. Mas César questiona: “Há necessidade do conhecimento do passado? Qual a intenção e interesse de ter acesso às essas informações? Você está preparado realmente para esse conhecimento?

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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