Revista Mandala

Quem está à espera no cerrado?

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Por Edmar Borges

Vinte anos após a contracultura dos anos 1960 que questionou o progresso industrial e inspirou movimentos ecológicos, Djavan compôs a música Serrado para seu segundo álbum de estúdio. Nela, ele canta sua saudade de casa e diz “se o Senhor me for louvado, eu vou voltar para o meu serrado, por ali ficou quem semeou o meu amor”. Em 1979, ano de lançamento da música, a discussão sobre sustentabilidade e consciência ambiental no Brasil mal chegava a engatinhar: otimista, a população se deslumbrava com as novidades industriais vindas da Europa. Quem iria suspeitar, lá na década de 1970, que a terra de Djavan já estava com dias contados?

Sem teto na selva

Mas o Cerrado brasileiro não é terra só do Djavan. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, ele é considerado a savana mais rica do mundo, abrigando a previsão de um total de 2.566 espécies de fauna e 11.627 espécies de plantas. Isso corresponde a 5% de todas as espécies do planeta. E toda essa diversidade se espalha por mais de dois milhões de quilômetros quadrados, ou seja, 23% do território nacional. Para se ter uma ideia, Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido cabem juntos nesse espaço. O Ministério do Meio Ambiente aponta ainda o Cerrado como refúgio de 35% de todas as abelhas tropicais do mundo.

E não para por aí. Quatro dos cinco biomas do Brasil estão ligados ao Cerrado. Sua dimensão territorial é tão vasta que faz fronteira simultaneamente com o Mato Grosso do Sul e o Maranhão. Além disso, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente, muitas populações sobrevivem dos recursos naturais que ele oferece. São comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, dentre outras que constituem o patrimônio cultural e histórico do país. O que acontecerá a todos esses habitantes se o Cerrado acabar?

Já está acontecendo. Segundo a organização Worl Wide Fund for Nature (WWF) menos de 3% de toda a sua área está realmente sob proteção. Só em Goiás, 60% do bioma se transformou em pastagem, 6% estão destinados exclusivamente à agricultura e outros 14% a estradas e cidades. Faça as contas: restam apenas 20% do bioma. E desse resultado, apenas 1% permanece totalmente intacto. Isso não soa familiar?

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Uma história que já foi contada antes

O Decreto nº 4.281 de 25 de junho de 2002 regulamentou a aprovação da Lei 9.795, de 27 de abril de 1999, que estabelece a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA). Com isso, as duas ou três últimas gerações de alunos das escolas brasileiras saíram do Ensino Fundamental mais do que avisados sobre o irreversível fim do bioma mais rico do planeta: a Mata Atlântica. Atualmente, não se diz às crianças que preservem esse bioma para que ele não entre na zona de risco: elas aprendem que é tarde demais. O que não deixa de ser verdade. Segundo dados de 2012 do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, apenas 8,5% da floresta tropical brasileira, argentina e paraguaia sobrevivem. Um bioma como esse consegue ser ainda maior que o Cerrado, se alargando por todo o litoral brasileiro, e ainda assim não conseguiu escapar. Mas escapar do quê?

Do ser humano, o único habitante da Terra que não entende seu posto de comparte e confere a si mesmo direitos de propriedade. Por muito tempo, o Cerrado foi considerado impróprio para muitos tipos de cultivo e para a utilização agropecuária. No entanto, o desenvolvimento de técnicas agrícolas e da exportação trouxeram pastagens e monoculturas à sua paisagem. O desmatamento também compõe sua trágica configuração atual: a retirada de madeira e produção de carvão transforma florestas em campos desertos. E o mais alarmante é que informações como essas não aparecem todos os dias na televisão.

De acordo com Reges Schwaab, jornalista e doutor em Comunicação e Informação pela Universidade do Rio Grande do Sul, a própria cobertura jornalística sempre focou mais na Mata Atlântica. Claro que ambos os biomas, bem como todos os outros que compõem o Brasil e o planeta, são igualmente importantes. Professor e pesquisador da área ambiental, Schwaab acredita que é isso que deve ser pensado. “Não há bioma mais ou menos importante. Não há ser vivo mais ou menos importante. Natureza é equilíbrio. Mas contribuímos, como humanidade, para desestabilizá-lo, desmerecendo tudo que não responda ao conjunto de lógicas mercantis que dominaram a vida da maior parte de nós, naturalizando a destruição, o preconceito, a agressão”.

Jornalismo ambiental, educação ecológica e a cultura da degeneração

As palavras de Schwaab expõem o cerne dessa cultura do descaso que permeia o hábito humano, uma herança somatizada a cada geração. O colonialismo é pai do capital. E enquanto mantiver esse comportamento predatório com o meio ambiente, a humanidade estará também sendo predadora de si mesma. Será que ela sabe disso?

Há muitos paradoxos no assunto ambiental no Brasil. Sabe-se, ao menos superficialmente, que a destruição da natureza é a destruição de toda forma de vida na Terra, incluindo a humana. No entanto, mesmo com o estabelecimento de leis como a da PNEA, ainda existe uma grande lacuna entre a educação ecológica ideal e a que é exercida e praticada em muitas escolas no país. Silvia Marcuzzo, jornalista pela Faculdade dos Meios de Comunicação Social na PUC-RS e diretora da empresa de comunicação Econvicta, acredita que o maior desafio está na escola. “Os próprios professores que dão aulas hoje parecem não ter a menor noção da situação ambiental. O mundo está em acelerado processo de transformação, o contexto ambiental tem muito a ver com isso, só que isso parece não estar sendo considerado pelas escolas. É só olhar as listas de materiais solicitados pelos colégios particulares”.

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Silvia atua na área ambiental há 20 anos e foi coordenadora de comunicação do Projeto BR-163: Floresta, Desenvolvimento e Participação, executado pelo Ministério do Meio Ambiente entre 2009 e 2011. De acordo com ela, o exercício do jornalismo ambiental nunca foi tão necessário e, paradoxalmente, nunca se disponibilizou tão pouco recurso para isso. Ao mesmo tempo em que o campo da comunicação como um todo enfrenta uma crise, a jornalista acredita que há um desmantelamento dos órgãos estaduais e federais de meio ambiente. Sem falar no poder daqueles que estão lucrando dia após dia com a exploração de recursos naturais, inclusive no Cerrado. “O Cerrado não é conhecido nem valorizado por vários motivos. Não é interessante tanto para os donos do poder, para a classe dominante, para os ruralistas, para o Congresso retrógrado e para os próprios meios de comunicação difundir o que significa o berço das águas do nosso país”, aponta Silvia. “O que falta é a própria imprensa, os jornalistas e a população saberem o que significa trabalhar a questão ambiental tanto da educação formal como informal.”

Reges Schwaab, que é um dos líderes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), lista algumas falhas da imprensa, como “superficialidade, cobertura descontinuada, falta de preparo dos jornalistas e pouca intimidade com a pauta ambiental”. Além disso, segundo Silvia, “se vê muito a imprensa usar questão ambiental como impeditivo para o funcionamento de atividades impactantes, como indústrias e mineração. E aí, falta disposição, sensibilidade e o interesse dos próprios donos e editores dos veículos explicarem o que significa o licenciamento para a qualidade de vida de qualquer região”, ela afirma. E questiona: “Algum veículo vai falar dessa situação sendo que boa parte dos anunciantes são empresas da construção civil?”.

Trágica previsão

Esse cenário impulsiona um afastamento entre a população e o conhecimento ecológico, que não se trata de dominar os assuntos ambientais mas ao menos conhecer o estado do nosso país nesse quesito para que se possa construir uma consciência de sustentabilidade. Como menciona Silvia, o Cerrado é o berço aquífero do Brasil. Portanto, em tempos de crise hídrica no sudeste, para onde se volta toda a atenção da mídia convencional, a relação íntima entre a população e a preservação é urgente. Segundo a WWF, por possuir árvores menores e de raízes mais fortes e compridas, “o Cerrado funciona como uma grande esponja que absorve e distribui a água por toda a região”. Ele é responsável por alimentar seis das oito grandes bacias hidrográficas do Brasil.

Por isso, a previsão é ainda mais catastrófica: de acordo com a Conservação Internacional, ONG que trabalha para proteger hotspots de biodiversidade da Terra, o Cerrado pode desaparecer até daqui quinze anos. Será que ele só será notícia principal do telejornal quando for para anunciar sua extinção? E o padrão se repetirá? Já dizemos adeus a mais de 90% da Mata Atlântica, agora estamos fazendo o mesmo com o Cerrado. Qual será o próximo bioma? Quando o tema ambiental será evidencializado? “A questão ambiental tem relação a todas as outras coisas da vida”, afirma Silvia.

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Schwaab não pensa diferente. Para ele, a questão ambiental “é algo orgânico, sem fronteiras, o ambiente nos permeia, somos parte dele, os seres humanos são uma pequena parte do ambiente. Enquanto isso não for incorporado como ética, como algo natural e partilhado, enfrentaremos dificuldades e seguiremos em uma rota destrutiva”. O jornalista acredita também que não se investe o bastante em ciência, não se leva a sério o ambiente e não se preserva nem se fiscaliza com o necessário rigor. Por isso, ele acha impossível reestruturar a educação ecológica não só no Brasil, mas no mundo inteiro. “Em geral, vamos indo em frente como se a estrada não fosse acabar, alegres com relatórios sócio-ambientais falhos e mentirosos, desrespeitando os saberes tradicionais, achando que tudo está longe, lá fora e que, por hora, não vai nos afetar”, afirma. “Grande engano”.

As monoculturas, especialmente de soja, a produção de carvão, a apropriação agropecuária e as queimadas no Cerrado o sentenciaram. A cada queimada, por exemplo, a população de plantas diminui. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília calcula que aproximadamente trinta mil quilômetros quadrados são desmatados por ano. É nesse lugar onde se encontra todas as milhares de espécies de fauna e flora que compõem o ecossistema que nos proporciona a vida. E também quem semeou o amor de Djavan.

Mas quando ele finalmente voltar para lá corre o risco de não encontrar ninguém.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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