Revista Mandala

Ser vegetariano e depender do restaurante universitário pode ser um desafio

O cardápio sem carne dos bandejões não tem muito sal, mas às vezes sobra descaso.

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Quem tomou a decisão de se tornar vegetariano ou vegano precisa enfrentar algumas batalhas diárias na corrida pelos nutrientes. Em lanchonetes, por exemplo, são poucos os alimentos sem carne. Mas você já parou para pensar como isso funciona nos restaurantes universitários, principal fonte de alimentação para muitos estudantes?

O número de estabelecimentos destinados às pessoas que não se alimentam de carne tem aumentado, inclusive pelo aumento da popularidade do estilo de vida vegetariano. De acordo com o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), o Brasil conta com mais de 15 milhões de vegetarianos. Além disso, a conscientização proposta pelo vegetarianismo tem apresentado alcance global: em países como a Alemanha, o número de veganos, por exemplo, cresceu 800% entre 2010 e 2013.

Nos espaço acadêmico não tem sido diferente. O aumento do número de estudantes que decidem se abster dos alimentos de origem animal tem feito crescer a demanda por opções vegetarianas e alterado um pouco os cardápios dos famosos Restaurantes Universitários (RUs), onde muitos deles se alimentam diariamente. Mas será que está alterando o suficiente?

pexels-photo-26799Variedade e preparo correto: onde vocês estão?

Não, ninguém mandou ser vegetariano, vegano, crudívoro, herbívoro ou sobreviver da luz solar. A sociedade é majoritariamente carnívora e a cultura predatória que prescreve o ritmo e as opções alimentares convencionais é socialmente assegurada. Além disso, um consumidor pode se dirigir ao restaurante ou lanchonete que melhor atende suas escolhas de vida. Isso é um problema de cada um. Mas e o estudante universitário que depende do restaurante da universidade? Ele vai ter que abandonar sua escolha para conseguir se alimentar bem?

Sim, é possível. Eduardo Borges, estudante da Universidade Federal de Ouro Preto, conta que optou pelo vegetarianismo depois de um longo processo de amadurecimento da ideia, sem saber que o mais difícil estava por vir. Ele, que possuía o auxílio-alimentação da universidade e dependia do RU, teve que encarar logo na semana seguinte o começo de um desafio.

Eu abandonei a carne, não o tempero”, ele brinca, falando sobre o sabor (ou falta dele) da comida do Restaurante Universitário da UFOP na época em que ele se tornou vegetariano. “Já tinha que buscar alimentos complementares para me manter saudável, e tive que começar a buscar ainda mais, porque a comida vegetariana do RU simplesmente não descia às vezes”.

A cultura predatória que prescreve o ritmo e as opções alimentares convencionais é socialmente assegurada.

Eduardo chama a atenção, ainda, para a ideia que alguma pessoas fazem dos vegetais, das verduras e dos legumes: “esses alimentos têm muito sabor, alguns são muito fortes. Mas, assim como a carne, é preciso temperar, fazer do jeito certo, preparar a comida”. O que Eduardo denuncia é a falta de variedade e o descaso no preparo. Depois de alguns meses, ele voltou a comer carne eventualmente, quando não conseguia se adaptar à opção vegetariana do RU.

food-salad-healthy-vegetablesFernanda Souza, estudante da Universidade Federal de São Carlos, também aponta para o mesmo problema. Havendo tantas opções leguminosas e de verdura, ela se espanta que lentilha e ervilha sejam tão frequentes no cardápio, assim como a soja, que ela conta ser utilizada no preparo de quibes e croquetes mal temperados, sem falar no excesso da Proteína Vegetal Texturizada (PVT).

“O cardápio, talvez, não seja tão caprichado quanto o com carne. Não é tão variado”, ela relata. “As opções vegetarianas são imensas e poderiam sair dessa de grãos, usar mais legumes, mais alimentos orgânicos”.

Nem Eduardo nem Fernanda estão sozinhos nessa. E, em alguns casos, é preciso correr atrás do vegetal de cada dia.

Pelo direito de escolher e de se alimentar

“Lembro até hoje o que tinha de carne no meu primeiro dia de faculdade: bisteca à fantasia”, conta Bruna Nascimento, que estudou na Universidade Federal do Paraná e hoje é nutricionista. “Imagine o que não tinha naquela carne pra merecer esse nome”.

Em Curitiba, na UFPR, um pequeno grupo de estudantes conseguiu, depois de um bom tempo de dedicação, instaurar um cardápio estritamente vegetariano nos RUs dos campi da universidade. Com origem na insatisfação dos universitários vegetarianos que não podiam se alimentar corretamente nos RUs, o RU VEGetariANO surgiu de mobilização estudantil.

food-healthy-vegetables-potatoes“Um foi chamando o outro até marcarmos uma reunião no DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFPR, discutirmos e decidirmos criar o movimento”, descreve Victor Portugal, que fez parte do grupo difusor da iniciativa. Ele conta que até havia algumas opções vegetarianas no RU, mas eram muito esporádicas e nada apetitosas, motivo pelo qual se fez necessária a busca por uma alimentação nutritiva, correta e tão bem preparada quanto as opções para carnívoros.

Após várias reuniões para encontrar projetos de ação e inspirados por instituições como a Universidade de Brasília e a Universidade Federal de Santa Catarina, o grupo elaborou estratégias para que a demanda alcançasse os órgãos superiores da UFPR. Isso levou um tempo, em especial por envolver trâmites e burocracia, mas a exigência não foi abandonada. Uma pesquisa de opinião, inclusive, revelou na época que mais de 800 estudantes da universidade gostariam de ter opções vegetarianas no RU, o que fortaleceu o movimento.

“Rolou uma união”, Victor relata. “E sempre de estudantes. Alguns vegetarianos, alguns entusiastas, alguns veganos, e daí nos unimos para fazer esta coisa bonita”.

Como se ter um caldo, pedaços ou secreções de algum animal morto na minha comida não fosse relevante.

Bruna, que também esteve envolvida indiretamente com a implementação do RU VEGetariANO, estudava em três campi diferentes da universidade e via o mesmo cardápio padrão em cada um deles. Até aí, tudo bem. Mas esse cardápio fixo era composto por salada, vinagrete, arroz, feijão, carne e sobremesa. Fonte de proteína não-animal? Nenhuma, a não ser que fosse o dia da salada de sorte.

“Nunca me importei muito em não ter uma opção vegetariana”, ela conta. “O que mais me incomodava era a falta de informação sobre o que tinha ou não nas preparações. Como se ter um caldo, pedaços ou secreções de algum animal morto na minha comida não fossem relevantes”.

food-salad-restaurant-personPara Bruna, a grande importância de se incrementar os restaurantes universitários com um cardápio sem carne é, além de proporcionar dieta nutritiva e de qualidade para os vegetarianos, semear o debate e o conhecimento sobre o tema em todos que ainda não o compreendem bem. “Acredito que essa mudança no cardápio tenha incentivado muitas pessoas a refletirem sobre o vegetarianismo, a diminuírem seu consumo de carnes e outros ‘alimentos’ derivados de animais”, ela diz.

E conclui que a presença dos produtos de origem não-animal faz com que a reflexão seja semeada. Para ela, “faz as pessoas que estão tentando nadar contra a corrente se sentirem inclusas e diminui uma das principais barreiras na hora de mudar o hábito alimentar: a social”.

Afinal, o vegetarianismo não existe por acaso e não nasceu em uma roda de dança com alguns entusiastas hippies decididos a transformar o mundo num lugar onde animais jamais serão comidos. Sabe-se que muitos produtos, não apenas na alimentação, são compostos por materiais de origem animal. Vegetarianismo é sério e merece respeito. Por isso, os estudantes universitários que adotaram esse princípio têm o mesmo direito daqueles que não adotaram: o de se alimentar bem no espaço público.

A ideia não é radicalizar a forma como o mundo se alimenta, embora isso fosse resolver muitas questões problemáticas da sociedade atual. O objetivo, neste momento, é simplesmente preservar o direito de cada um de exercer o seu princípio do bem de cada dia, seja ele qual for.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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