Revista Mandala

Seus dons serão necessários quando a vida chamá-los: entrevista com Charles Eisenstein

Nesta segunda parte, Charles falou do jogo político segmentador e reforçou a importância de uma economia baseada no que há de melhor em cada um.

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“Eu me graduei em Matemática e Filosofia na Universidade de Yale, mas todos os meus estudos e avanços sobre a razão não me levaram à verdade que eu realmente buscava”, diz Charles Eisenstein em seu site.

Orador, pensador contemporâneo e autor de cinco livros, três dos quais se tornaram referência mundial na área de Economia, Charles se considerava uma criança muito sensitiva, intelectual e sonhadora. Hoje, ele é um ativista do movimento degrowth, uma vertente política, econômica e social erguida sobre as concepções do anti-capitalismo e da economia ecológica. No Brasil, o movimento pode ser encontrado com o nome de “decrescimento”.

(Foto: disponível no site de Charles Eisenstein/Reprodução)

“O dinheiro é um acordo. Ele não tem valor nenhum por ele mesmo. Ele só vale alguma coisa porque as pessoas entraram num acordo de que ele valeria”.

Charles Eisenstein em Sacred Economics: A Short Film

No livro Sacred Economics: Money, Gift and Society in the Age of Transition (“Economia Sagrada: Dinheiro, Dom e Sociedade na Era da Transição” em tradução livre, sem edição brasileira), ele propõe que as pessoas valorizem mais os seus próprios talentos e se identifiquem com as formas (já existentes) de tornar a sociedade mais orgânica e menos monetária. Deixando o dinheiro um pouco de lado, elas podem se ajudar com o que sabem fazer de melhor e não se comercializam por pedaços de papel.

“Sempre que possível, eu ofereço o meu trabalho como um presente”, Charles conta. A Revista Mandala conversou com ele sobre como funciona essa oferta e traz para você tudo o que ele nos contou sobre o sistema monetário mundial, o comportamento da humanidade e as perspectivas para um maior bem-estar coletivo. Para que você não perdesse nada, dividimos a entrevista em duas etapas, e a primeira você já conferiu aqui.

Na segunda parte desta conversa, voltada para a economia e a política, Charles falou sobre a Economia Sagrada em comunidades locais e do jogo de poder que exercido pelo sistema a fim de desviar as pessoas do foco na promoção da coletividade. Confira:

charles-eisenstein-podcast-image

Revista Mandala: Afinal, qual é o “valor” de nossos talentos? Como eles podem ser usados no dia a dia, nos nossos bairros, comunidades e grupos sociais?

Charles Eisenstein: Você sabe a resposta para isso, porque seus talentos serão chamados pelas necessidades que a vida apresenta para você.

Estudando sobre a prática de usar os dons como moeda de troca, você encontrou comunidades que ainda fazem uso deste sistema nos dias de hoje? Como elas ainda resistem ao controle financeiro global?

Não é que o dons sejam, na verdade, “moeda de troca”. Antes do dinheiro dominar a vida econômica, as pessoas se conectavam às necessidades umas das outras em comunidade através de uma economia da dádiva. Não foi troca ou barganha, e ninguém estava contando. Mas, por exemplo, numa aldeia remota no Brasil, as pessoas cuidam umas das outras e partilham. Se você é generoso para a sua comunidade, as pessoas vão ser generosas com você também. Você vai crescer em uma realidade de cuidado mútuo e generosidade. Funções como a produção de alimentos, cozimento, cura, cuidados infantis, música, entretenimento, etc. serão atendidas em sua comunidade, e não medidas pelo dinheiro. Isso nos apresenta uma oportunidade de negócio, porque há um monte de funções para a vida que podem ser tiradas do meio dessa comunidade e vendidas novamente.

Por exemplo, uma região onde o forte é a preparação de alimentos tradicionais torna-se um grande mercado em potencial para os restaurantes fast food. A região onde as pessoas constroem suas próprias casas é um grande mercado em potencial para arquitetos e empreiteiros – tudo que você tem a fazer é exigir seus serviços com o devido credenciamento para construir. A região onde as pessoas se ajudam umas às outras em tempos de crise é um grande mercado em potencial para as companhias de seguro. Um lugar onde as pessoas se curam com ervas locais é um mercado em potencial para produtos farmacêuticos (apenas convença os moradores de que seu medicamento é primitivo e antiquado). Um lugar com um ecossistema saudável, o que naturalmente mantém pragas e doenças em equilíbrio, é um mercado em potencial para herbicidas e inseticidas quando esse equilíbrio é perturbado.

Portanto, a fim de servir os interesses do capital global, comunidades locais autossuficientes precisam ser destruídas.

Se você é generoso para a sua comunidade, as pessoas vão ser generosas com você também. Você vai crescer em uma realidade de cuidado mútuo e generosidade.

Como você vê este processo de assistência mútua e o intercâmbio de valores humanos? Você acredita que aí está o “milagre” da reconstrução da humanidade?

Eu acho que o nível pessoal e o nível que tem relação com o sistema devem mudar juntos. Responder a situações pessoais com compaixão e empatia ajuda a mudar o clima segmentador que a economia neoliberal faz parecer tão natural. Da mesma forma, a mudança do sistema econômico irá aliviar a ansiedade e o medo que nos mantêm separados.

Em Sacred Economics, Charles explica que o dinheiro vai para aqueles que geram lucro. Estes, consequentemente, ocupam os espaços daqueles que produzem apenas o suficiente para manter a comunidade, criando um ciclo de exploração e movimentação de dinheiro.
Em Sacred Economics, Charles explica que o dinheiro vai para aqueles que geram lucro. Estes, consequentemente, ocupam os espaços daqueles que produzem apenas o suficiente para manter a comunidade, criando um ciclo de exploração e movimentação de dinheiro.

Mesmo em um sistema democrático, talvez seja certo dizer que nós não sabemos se realmente temos algum poder real de transformação. Você acredita que somos, de fato, capazes de mudar as coisas?

As autoridades governamentais estão sempre procurando maneiras de controlar e neutralizar o poder das pessoas. No entanto, há momentos na história em que o poder do povo é bem-sucedido. Recentemente, chegamos perto disso em vários países do Oriente Médio e nas Américas Central e do Sul também. Não se obteve sucesso porque um poder externo – Estados Unidos e Europa – veio para dar assistência às elites locais e ajudá-los a manter o poder. É por isso que eu acho que tem que haver um colapso nos países centrais da ordem mundial para a mudança real e duradoura poder acontecer no resto do mundo.

Até que isso aconteça, a mesma história que você já viu por tanto tempo na América Central e na América do Sul se repetirá. Um país decide seguir seu próprio caminho e desafiar o regime econômico neoliberal. Um governo de esquerda chega ao poder e é atacado de muitas maneiras. Talvez potências do Norte financiem grupos de oposição. Talvez eles pressionem pela liberalização financeira que lhes permite desestabilizar a moeda. Eles encontram maneiras de criar a crise econômica. Eles podem até apoiar um golpe militar, como aconteceu em Honduras. Além da ação política ostensiva, eles mantém o controle de forma mais sutil, por exemplo, através de programas educacionais que estabelecem economia neoliberal como um padrão.

Como o movimento Degrowth contribui para a construção de um mundo mais fundamentado na “verdade que importa” (expressão de Charles) e também de um lugar mais justo, mais orgânico e mais bonito?

Degrowth significa simplesmente uma diminuição da economia baseada no dinheiro, bem como a transferência de funções monetizadas de volta ao reino da ecologia e dos dons. Degrowth acontece quando as pessoas recuperam suas habilidades, suas práticas de cuidado mútuo e sua autossuficiência local, para que não sejam mais dependentes de produtos vendidos pelo dinheiro da economia global.

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Como Charles detalha no curta-metragem Sacred Economics, dirigido por seu parceiro de ativismo, o diretor Ian MacKenzie, hábitos simples podem significar muito. Confira abaixo:

 

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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