Revista Mandala

Site de hospedagem oferece serviço inédito na América Latina para viajantes e casais gays

Sofrer preconceito já é ruim, imagina durante a viagem.

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Lidar com o preconceito é difícil. De todos os tipos, em todas as ocasiões. Por isso, quando Emanuelle Campelo chegou com a sua então namorada na porta do hostel em que esperavam se hospedar, depois de um percurso longo e cansativo pelo interior de Minas Gerais, ela precisou pedir licença, virar as costas e sair.

“O jeito como olharam para nós foi a gota d’água”, conta a estudante de 26 anos, que desde muito jovem tem um apreço especial pelas histórias de livros e filmes sobre grandes e emocionantes viagens. “Nós já estávamos cansadas, acho que principalmente eu. Chegou uma hora em que começamos a contar”, Emanuelle desabafa.” Dentre sete cidades que já havíamos percorrido, nos lembrávamos de treze ocasiões em que havíamos sido ofendidas verbalmente por sermos um casal de mulheres”.

Na época com 23 anos, ela e a namorada estavam viajando juntas de Goiás ao sul de Minas. Optaram por conhecer as cidades no trajeto porque, para Emanuelle, era uma oportunidade única de conhecer uma parte do país e poder ter a sensação de liberdade da qual tanto ouvia falar nos filmes e livros que apreciava.

Mas liberdade não foi exatamente o que ela mais sentiu.

O preconceito também se hospeda – às vezes por muito tempo

De acordo com Emanuelle, as pessoas não faziam questão nenhuma de esconder o desconforto. Na ocasião descrita no começo do texto, ela e sua então parceira entraram de mãos dadas no saguão e foram recebidas com uma série de olhares que ela descreveu como insuportáveis. Como já havia passado por situações assim durante todo o percurso, não conseguiu manter a calma e tentar não se abalar, como vinha fazendo desde o princípio. “Nós só queríamos ser recebidas como todo mundo, sem precisar esconder quem somos”, ela conta.

 

Os estabelecimentos, sejam quais forem, devem observar seu compromisso com o respeito e a educação.
Os estabelecimentos, sejam quais forem, devem observar seu compromisso com o respeito e a educação.

Por situações como as que Emanuelle e a namorada passaram, o jornalista Luiz de França decidiu criar uma plataforma para coletar e divulgar estabelecimentos declaradamente gay-friendly, ou seja, que abraçam e respeitam a diversidade sexual e de gênero (friendly significa “amigável” em inglês). “A ideia foi um misto de experiências vividas por mim, por alguns amigos e da falta de informações sobre hospedagem gay-friendly em geral”, Luiz explica.

Segundo ele, a dificuldade começa já no planejamento da viagem. Como geralmente não conseguia coletar informações dos estabelecimentos sobre sua atitude frente à diversidade, Luiz acabava por se hospedar em qualquer lugar, e a experiência nem sempre era satisfatória. “Eu já vivi a situação das camas separadas”, ele relata, sobre quando pede um quarto para ele e outro homem. “É aquele momento em que a pessoa que faz o seu check-in acredita que o pedido de cama de casal, feito antecipadamente, foi algum erro e faz o grande desfavor de trocar sem nos consultar”.

friends-438438_1280Mas para Luiz essa é uma das falhas menores. “Particularmente, considero pior estar em um ambiente em que algum simples gesto, meu e de quem estiver comigo, possa não ser bem visto e causar algum incômodo”, ele conta. E assim como Emanuelle, que não escondia o seu relacionamento lésbico, Luiz acredita no direito das pessoas se locomoverem e ocuparem os espaços do mundo, independente de suas identidades de sexualidade e gênero.

Estamos fazendo com que os funcionários e colaboradores desses lugares sejam pessoas mais abertas à diversidade, tornando-os uma espécie de multiplicadores de atitudes mais positivas em casa, na família e com os amigos.

“Eu espero ver um dia em que as pessoas possam andar e se vestir do jeito que quiserem” ele diz. “Sem medo de serem discriminadas, atacadas ou até mesmo mortas como, infelizmente, ainda acontece, apenas por serem diferentes”. Com esse desejo em mente, a Ahoy Trip, plataforma criada por ele para que viajantes LGBTQ e simpatizantes possam se hospedar sem receio de ser quem são, tem um lado social muito importante, como ele mesmo ressalta: “ao estimular que pousadas e hostels tornem-se LGBT-friendly, estamos indiretamente também fazendo com que os funcionários e colaboradores desses lugares sejam pessoas mais abertas à diversidade, tornando-os uma espécie de multiplicadores de atitudes mais positivas em casa, na família e com os amigos”.

(Foto: Ahoy Trip/Reprodução)
(Foto: Ahoy Trip/Reprodução)

Emanuelle, que diz estar em treinamento pessoal para lidar emocionalmente com o tratamento discriminatório, conta que o maior desafio é ser alvo todos os dias de um olhar torto, de um comentário ofensivo ou de uma risada agressiva apenas por ser do jeito como ela nasceu. “Não faz sentido para mim que algumas pessoas sejam tratadas bem e outras não”, ela comenta. “E não faz sentido que isso faça sentido para alguém.”

Sobre o preconceito durante viagens, ela conta ainda que muitas vezes, mesmo de mãos dadas, as pessoas achavam que ela e a namorada eram apenas melhores amigas, o que diminuía o preconceito com relação à orientação sexual, mas aumentava as manifestações de machismo. “Alguns homens se sentiam no direito de nos desejar daquela forma, como um casal”, ela conta. “O que é pior é que esses homens trabalhavam nos lugares onde nos hospedávamos”.

Luiz chama a atenção para o mesmo caso. Não só referente a funcionários do estabelecimento, mas a outros hóspedes também. “Há casos de casais de mulheres que são assediadas por homens dentro das instalações da hospedagem e, muitas vezes, não se sentem apoiadas pelo estabelecimento quanto a protegê-las desse tipo de assédio”, ele descreve.

De onde vem o preconceito?

Não é possível mensurar fenômenos de discriminação, pois cada experiência é pessoal. Da mesma forma, não se pode dizer com certeza o que estimula esse processo de julgamento e desconforto com a felicidade do outro. Mas os estabelecimentos de hospedagem possuem uma responsabilidade que deve ser observada – e cumprida. Em uma viagem, onde os eventos podem se tornar imprevisíveis e as casualidades ganham as rédeas do destino, se deparar com situações de ódio ou mesmo de pouca receptividade pode ser extremamente entristecedor e injusto.

girlfriends-338449_1280Para Luiz, o processo de consciência sobre a diversidade tem a ver com a informação. “No Brasil, temos pequenas bolhas urbanas de avanços em que existe um certo respeito. Mas são lugares isolados que não refletem a realidade geral”, ele afirma. “Esse é um processo lento que ganhou fôlego nos últimos anos por causa do maior acesso à informação que a gente tem atualmente. É a informação que ajuda a desconstruir estigmas ainda muito associados a nós, LGBT.”

Emanuelle acredita que a discriminação vem de uma cultura que pode ser transferida de geração para geração. Na opinião dela, as pessoas tendem a evoluir, porque aprendem com os erros do passado e começam a agir com mais amor e paciência. “Mas também pode acontecer o contrário”, ela adverte. “Tem muita gente que, por alguma razão, prefere estagnar na ignorância, não aceita as pessoas como são, é incapaz de amar pela beleza da pluralidade”.

Não é por acaso que a Ahoy Trip tem recebido um retorno recompensador, como descreve Luiz. Ele conta que as pessoas têm feito muitos comentários positivos sobre a iniciativa. “Saber que o hotel, pousada ou hostel em que se está hospedado vai defender o seu direito diante de pessoas preconceituosas, que possam vir a causar alguma situação constrangedora, é um grande estímulo para se optar por hotéis e estabelecimentos gerais que se comprometem em aceitar e respeitar a diversidade”.

“Para alguns, isso pode parecer bobagem”, ele comenta. E reforça convictamente: “mas não é”.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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