Revista Mandala

Sonhos lúcidos – Como é possível assumir o controle do que você sonha?

Quando você consegue conduzir os seus sonhos, o momento de dormir se transforma em uma jornada de descobertas, encontros e aventuras

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Quando você consegue conduzir os seus sonhos, o momento de dormir se transforma em uma jornada de descobertas, encontros e aventuras

Embora muitas pessoas não se lembrem de seus sonhos quando despertam pela manhã, pesquisas afirmam que podemos ter tranquilamente cinco sonhos diferentes todas as noites. E se você pudesse controlar todos esses sonhos a ponto de visitar lugares do outro lado do mundo em instantes, encontrar pessoas que faleceram e até atravessar paredes? As possibilidades de se aventurar por aí com lucidez, sem estar preso a um corpo denso e livre da gravidade parece algo fascinante, porém é realidade para muita gente e, com algum treino, pode ser uma realidade constante para você também.

Com a estranha teoria de que o sono era decorrente da evaporação dos alimentos no organismo, Aristóteles foi um dos primeiros estudiosos que tentou investigar os sonhos. Na sua obra com título em latim De somno, ou Sobre o sono em português, o filósofo relaciona os movimentos do rosto, dos lábios e dos olhos com o conteúdo do sonho. De certa maneira, sua teoria se aproxima do que atualmente é conhecido como sono  REM – Rapid Eye Movement, em inglês – ou movimento rápido dos olhos, uma fase que, quando dormimos, está relacionada aos sonhos, em que a atividade cerebral está aumentada e os olhos se movimentam rapidamente embora o corpo esteja relaxado.

Do ponto de vista científico, é Sigmund Freud quem leva o título de primeiro grande estudioso do sonho e desmistifica sua característica sobrenatural, como acreditavam as antigas civilizações. Em 1900, Freud escreveu o livro A interpretação dos sonhos, que começa a dar as caras da psicanálise. Segundo ele, a investigação do sonho, que tem como função descarregar desejos reprimidos, tem grande importância na prática psicanalítica. É nesta mesma obra que Freud fala brevemente sobre os sonhos lúcidos: “Algumas pessoas podem ter consciência enquanto estão sonhando, e parecem possuir a capacidade de dirigir conscientemente seus sonhos”. Contudo, um dos maiores estudiosos do sonho, o psiquiatra alemão Frederik Willems van Eeden criou o termo “sonho lúcido”, que se refere ao estado de consciência em que é possível realizar qualquer ato durante o sonho apenas com a própria vontade.

Para o médico e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Sérgio Arthuro Mota Rolim, o sonho lúcido é um tipo especial de sonho em que sabemos que estamos sonhando durante o sonho. “Nos sonhos comuns, ou não-lúcidos, nós achamos que o que está acontecendo no sonho é real, e o melhor exemplo disso é o pesadelo: por mais absurdo que seja, como monstros nos perseguindo, ficamos com medo e só nos damos conta que aquilo não está acontecendo depois que acordamos”, ressalta. No sonho lúcido, a consciência de estar sonhando pode ocorrer mesmo durante um pesadelo e, em muitos casos, é possível controlar o seu conteúdo. Arthuro, que é pós-doutorando no Instituto do Cérebro e no Laboratório do Sono do Hospital Universitário Onofre Lopes, da UFRN, conduziu uma pesquisa com 3.427 entrevistados sendo que 77,2% relatou ter tido pelo menos um sonho lúcido durante a vida. O pesquisador concluiu que o sonho lúcido é uma experiência relativamente comum, mas não recorrente, rápida e difícil de controlar.

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O estado REM: quando os sonhos acontecem

Muitos estudos têm relacionado o sonho lúcido com o estado de sono REM e, entre as evidências, pesquisas demonstram que as pessoas acordadas após essa fase conseguem relatar seus sonhos mais frequentemente do que aquelas que são acordadas após o sono não-REM. De acordo com um estudo publicado no jornal Nature Neuroscience, no ano passado, a fase do REM se refere ao estado primário de consciência, em que a atenção se volta somente para o presente e com acesso não-controlado ao passado ou ao futuro antecipado. Ao acordar, os seres humanos entram em um modo secundário de consciência em que ocorrem as funções cognitivas de ordem superior, como a consciência auto-reflexiva, o pensamento abstrato, a vontade e a metacognição. É no sonho lúcido que os estados de consciência primários e secundários se encontram, ou seja, os elementos da consciência secundária coexistem com a consciência normal do sono REM, o que permite a pessoa  se tornar ciente de que está sonhando e controlar o seu sonho.

Os resultados preliminares das pesquisas conduzidas por Arthuro aqui no Brasil, a partir de uma análise estatística do sinal cerebral em cinco pessoas que tiveram sonho lúcido, indicam que esse tipo de sonho é um estado de transição do sono REM para a vigília. “Apesar de o sonho lúcido ser um sonho, o cérebro está próximo de despertar. Isso explica porque na maioria das pessoas o sonho lúcido dura muito pouco, pois elas acordam logo depois de se darem conta que estavam sonhando. Para algumas pessoas, entretanto, essa transição se dá de forma mais gradual e prolongada, aumentando o tempo de duração do sonho lúcido”, esclarece o médico. Os estudos observaram que muitas pessoas relacionam o sonho lúcido com o estresse, responsável por aumentar a quantidade de despertares, o que fortalece a ideia de que o sonho lúcido é um estado intermediário entre o sono REM e o estado desperto.

Lá pelas 4 horas da manhã, o voluntário começa a apresentar uma atividade cerebral muito parecida com quando ele estava adormecendo: seus olhos começam a se mexer rapidamente de um lado para o outro e sua respiração fica muito irregular, caracterizando o sono REM. Se acordarmos 100 pessoas nessas condições, 90 vão dizer que estavam vendo e ouvindo coisas, geralmente bizarras, e acompanhadas de um tônus emocional muito intenso – são essas experiências que nós chamamos de sonhos – Dr. Sérgio Arthuro

Os participantes realizavam movimentos pré-combinados com os olhos, o que permitia aos pesquisadores identificar que estavam sonhando conscientemente. Essa técnica, desenvolvida pelo psicólogo e cientista Stephen LaBerge, sugere aos voluntários que, caso consigam ter sonho lúcido, façam quatro movimentos com os olhos para a direita e esquerda, sucessivamente. Através do eletro-oculograma (EOG), que consiste em colocar os eletrodos  sobre a pele próxima dos olhos, é possível captar esses movimentos oculares pré-combinados. A maioria dos trabalhos neurocientíficos sobre sonho lúcido, inclusive desenvolvido por Arthuro em seu doutorado, utilizam esse método de detecção objetiva do sonho lúcido enquanto ele acontece.

Yoga dos sonhos

As pesquisas modernas em sonhos lúcidos surgiram a partir da década de 1970 com Stephen LaBerge que, na época, iniciava um estudo para o seu doutorado, na Universidade de Stanford. Quando menino, tinha sonhos lúcidos frequentemente, porém, com a adolescência surgiram outros interesses e naturalmente se afastou da prática. Enquanto LaBerge escrevia sobre as técnicas para indução de sonho lúcido, o então praticante budista, tradutor e intérprete de Dalai Lama, Alan Wallace, aprofundava-se na técnica de meditação shamata. Foi neste momento que seus destinos se cruzaram. Em sua literatura, LaBerge cita que muitos pensadores têm relatado experiências de estarem conscientes durante os sonhos, entre eles, monges e sábios budistas do Tibete, que desenvolveram o método yoga dos sonhos, uma técnica de meditação que favorece a lucidez durante os sonhos. Foi com esse olhar que LaBerge procurou Alan Wallace, com vinte anos de prática em shamata – e o convidou para, juntos, ministrarem retiros de sonhos lúcidos através da prática meditativa. Segundo LaBerge, alguns estudos apontavam que as pessoas que meditam têm sonhos lúcidos mais frequentemente, contudo, o pesquisador entendia que a meditação podia ajudar o aluno na prática do sonho lúcido e que os ensinamentos de yoga dos sonhos, da tradição tibetana de mais de mil anos, eram muito profundos.

De acordo com Alan Wallace, em seu retiro de yoga dos sonhos ministrado no início deste ano no Centro de Estudos Budistas Bodisatva Caminho do Meio, em Viamão, no Rio Grande do Sul, na disciplina de sonho lúcido se estuda cientificamente o que é sonho e o que é realidade. “Se você está sonhando, as imagens do sonho não representam uma realidade que seja independente de sua mente; é apenas uma realidade subjetiva, que só está na sua mente”, explicou, e disse ainda que o sonho lúcido pode ser desenvolvido a partir de práticas diurnas e noturnas.

Por que sonhar com lucidez

A  yoga dos sonhos é uma prática espiritual do Budismo que busca atingir a iluminação, ou seja, a consciência desperta como a de um buda. Enquanto que a ciência moderna considera o estado de vigília o mais desperto possível, no Budismo o estado de sonho é o que tem o maior potencial de desenvolvimento espiritual, desde que consigamos reconhecer que estamos sonhando. Embora budista, a yoga dos sonhos não requer nenhuma tradição religiosa para ser praticada, como diz Alan Wallace: “você pode praticar a yoga dos sonhos numa abordagem completamente secular e científica”.

Entretanto, de acordo com as pesquisas de Arthuro, o sonho lúcido pode trazer benefícios para quem sofre de pesadelos. Segundo sua tese de  doutorado em Psicobiologia intitulada Aspectos epidemiológicos cognitivo-comportamentais e neurofisiológicos do sonho lúcido (UFRN, 2012), os pesadelos podem se tornar recorrentes nos adultos com transtorno de estresse pós-traumático ou depressão grave e o sonho lúcido pode ajudar nesses casos. Ao atingir a lucidez em um pesadelo, “a pessoa pode parar de temer as ameaças por saber que aquilo é somente um sonho, e que nunca poderia trazer danos físicos, já que tudo não passa de sua imaginação”, esclarece Arthuro em sua tese e diz ainda que há diminuição na frequência e intensidade dos pesadelos com o aprendizado do sonho lúcido. A esquizofrenia é outra doença que poderia ser melhor elucidada através do estudo dos processos fisiológicos associados ao sonho lúcido. Freud e Kraepelin compartilharam a teoria de que a psicose é resultado da intrusão do sonho na vigília, ou seja, é como se os loucos estivessem sonhando acordados. Para Arthuro, “a esquizofrenia poderia ser entendida como o sonho durante a vigília, o sonho lúcido poderia ser a vigília no sonho, assim o sonho lúcido poderia ser inversamente relacionado com a esquizofrenia”, explica. Essa  relação

está comprovada através de estudos neuroanatômicos, já que, enquanto na esquizofrenia há uma atrofia frontal generalizada, no sonho lúcido há um aumento no ritmo gama na região frontal, uma área relacionada à autoconsciência. “Em um estudo recente, Voss e colaboradores (2014) foram capazes de induzir sonho lúcido por meio de uma técnica chamada estimulação transcraniana por corrente alternada. Nessa técnica usa-se uma estimulação elétrica indolor por fora do couro cabeludo e se consegue estimular áreas específicas do cérebro. Essa técnica foi utilizada para aumentar a atividade gama das regiões frontais durante o sono REM, e, portanto, foi capaz de desencadear um sonho lúcido”, complementa Arthuro.

No vídeo a seguir, o psicofisiologista Stephen Laberge explica técnicas para serem utilizadas durante os sonhos lúcidos (em inglês)


Como estimular os sonhos lúcidos

Mesmo para os sonhos mais vívidos, de acordo com LaBerge, a memória desaparece rapidamente a não ser que sejam utilizadas algumas técnicas. Arthuro explica que acordar um pouco antes do habitual, passar entre cinco e dez minutos pensando em ter um sonho lúcido e depois voltar a dormir é uma técnica que tem melhores resultados. O médico sugere colocar o despertador para meia hora antes do horário em que geralmente acordamos, pois o sono REM é mais comum nas últimas horas de sono. “Se você dorme de meia noite até oito da manhã, na segunda metade do sono, ou seja, entre as quatro e oito horas, você tem principalmente o sono REM”, esclarece Arthuro. “É muito comum as pessoas acordarem de um sonho, se levantarem para ir ao banheiro – ou apenas mudarem de posição na cama – voltarem a dormir e retornarem para o mesmo sonho, às vezes até continuando o sonho de onde parou. A ideia de acordar um pouco antes do normal é exatamente essa: acordar de um sonho e tentar voltar para o mesmo sonho, só que quando voltar, voltar de forma lúcida”, conclui.

É comum termos sonhos tão reais a ponto de não identificarmos que estamos sonhando, por isso, segundo Alan Wallace, é necessário fazer verificações de estado. Segundo ele, na prática diurna do treinamento da yoga dos sonhos é muito importante realizar algumas dessas verificações, entre elas, a que ele chama de atitude reflexiva crítica. “É reflexiva porque você está observando a própria experiência, e é crítica porque você vai se perguntar: será que estou sonhando?”, explica Wallace. Ele sugere fazer essas verificações de estado toda vez que percebemos algo esquisito, pois muitos fatos são improváveis de acontecer durante o estado de vigília, como estar no Rio de Janeiro, fechar os olhos e surgir em São Paulo.

Verificação de estado

Veja a seguir, três técnicas de verificação de estado, fundamentais para o processo de percepção dos sonhos lúcidos, ensinadas por Alan Wallace e baseadas em muitos anos de estudo. Quando essas práticas são executadas diariamente, a mente passa a discernir o que é sonho e o que não é.

Puxe o nariz – De acordo com Wallace, se puxarmos o nariz quando estamos sonhando há noventa por cento de chance de ele ficar mais comprido. Então, se você puxar algumas vezes o seu nariz durante o dia, no estado de vigília, provavelmente irá perceber que você não está sonhando, afinal ele continua do mesmo tamanho. “Se você puxa seu nariz e parece que ele é de plástico, assim você sabe que está sonhando. Mas se seu nariz não ficar mais comprido não há garantia de que você não esteja sonhando”, explica Wallace, em um tom humorado.

Dê um salto – Um outro teste é ficar em pé em uma superfície plana e segura e saltar para cima. Se você estiver sonhando será bem difícil cair em pé, do jeito que acontece quando estamos acordados. “O provável é que você fique flutuando ou vai baixando bem devagarzinho, ou você sai voando como uma folha. Se isso acontecer você pode assumir que está sonhando. Se não acontecer não é garantia”, ilustra o pesquisador.

Aproxime e afaste um texto – Coloque um texto em sua frente, leia o que está escrito, afaste da visão e aproxime novamente. “Há 87% de chance de que, se estiver sonhando, você vai ler uma coisa diferente da primeira vez. Se você tirar do seu campo de visão uma segunda vez e ler a mesma coisa do que a primeira vez, existe uma chance de 94% de você não estar sonhando”, analisa Wallace.

Testando

Durante o dia, ao perceber algo estranho, reconheça e questione: “isso é tão estranho que não possa acontecer no estado de vigília?”, sugere Wallace. É neste momento que você deve fazer a verificação de estado. A técnica é simples, de acordo com o professor, pois basta lembrar de reconhecer alguma coisa e depois fazer alguma coisa. “Você reconhece que algo é estranho e, quando reconhecer, faça a verificação de estado”, ensina. A partir dessa técnica, muitas pessoas têm conseguido desenvolver a prática de sonho lúcido, pois puxar o nariz quando perceber algo esquisito, por exemplo, ajuda a desenvolver um hábito. E quando o hábito ficar enraizado, ele pode surgir durante o sonho: “pode ser que alguma noite, durante um sonho, você olhe alguma coisa e fale “que estranho”, então você vai puxar o nariz e perceber que está sonhando lucidamente”, esclarece Wallace.

Além das práticas diurnas, é possível desenvolver algumas técnicas antes de dormir, como se concentrar em um desejo qualquer, na antecipação desse desejo e na resolução dele, como exemplifica Wallace. “Quando você for dormir, estabeleça essa resolução baseada no seguinte desejo: que esta noite eu reconheça meus sonhos como sendo sonhos”. Segundo ele, para a maior parte das pessoas, um terço do tempo será passado dormindo e, se não estivermos em um sonho lúcido estaremos em uma condição de ignorância ou delusão. “Se você estiver em um sono profundo sem ter consciência de que está dormindo, você está em ignorância, pois você está ignorando o simples fato de que está dormindo. Você não está absolutamente inconsciente, mas você também não está consciente explicitamente de nada. Entretanto, se você está sonhando e não reconhecer que está sonhando, então você está ignorante, você não sabe que está sonhando e também está deludido, pois você acha que tudo o que acontece no sonho é realidade”, analisa o escritor. Wallace salienta a importância de cultivar a lucidez durante o sonho. “Se vivermos noventa anos, trinta anos serão pior do que perder tempo. Essa é uma escolha fundamental. Você está disposto para passar um terço da sua vida em ignorância e delusão ou você gostaria de usar esse tempo para desenvolver lucidez e sabedoria?”, questiona.

 

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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