Revista Mandala

Tantrismo e Porn Reboot: atenção para a sua energia sexual

O movimento consiste na experiência de abandonar o consumo de material pornográfico atrelado ao hábito de se masturbar. É uma espécie de desintoxicação. E, como todo processo adaptativo, pode ser bem complicado. Então por que alguém se daria o trabalho? E o que isso tem a ver com algo tão intenso e criativo quanto a energia sexual?

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Por mais surpreendente que possa parecer, importantes ações de busca por autoconhecimento e por um exercício mais honesto da espiritualidade, tanto pessoais quanto coletivas, surgem em um lugar que, para muitos, serve justamente para afastar desse caminho: na Internet. Mas é o resultado dessa rede de experiências interconectadas que pode, em muitos casos, iluminar os caminhos. E um desses resultados é o Porn Reboot, que tem ganhado destaque nos últimos dois anos e está diretamente relacionado à observação do uso diário da energia sexual.

O movimento consiste na experiência de abandonar o consumo de material pornográfico atrelado ao hábito de se masturbar. É uma espécie de desintoxicação. E, como todo processo adaptativo, pode ser bem complicado. Então por que alguém se daria o trabalho? E o que isso tem a ver com algo tão intenso e criativo quanto a energia sexual?

Reeducando-se: os efeitos de um viciante jogo de recompensas

Muito sobre o Porn Reboot (algo como “reconfiguração da pornografia” em português) pode ser consultado online hoje em dia. Mas não era bem assim há menos de cinco anos, quando os estudos e as pesquisas relacionados aos efeitos da pornografia no cérebro ainda davam seus primeiros passos em direção a uma resposta minimamente conclusiva – e, para muitos, aterradora. Atualmente, no entanto, os integrantes desse movimento aderem à proposta de “reabilitação” por terem tomado conhecimento de que o sistema de recompensas com o qual a mente se envolve quando consome material pornográfico pode ser perigosamente arriscado.

Consumir pornografia na Internet tem muito a ver com consumir açúcar. Isso é o que sugere o pesquisador Gary Wilson, autor do livro Your Brain On Porn, em uma palestra no TED Talk onde ele explica que o hábito estimula uma atividade cerebral semelhante àquela executada quando se sofre uma perda e recorre-se imediatamente a um pote de sorvete para recompensar a sensação de falta. Portanto, o abandono desse padrão, quando ele é percebido como algo prejudicial, pode trazer uma série de benefícios a curto e longo prazo e auxiliar em muitas descobertas pessoais.

É o que aponta Rafael Trabasso, que há quase dois anos adentrou o hall de homens que observaram seu vício e começaram a abandoná-lo. “Alguns desses benefícios são imediatos e claros, como mais tempo disponível e mais disposição física”, ele conta em entrevista à Mandala. “Outros não são tão imediatos, e são os que acho mais interessantes, pois dizem respeito às relações com o mundo e as outras pessoas. Basta procurar os relatos, eu já dei o meu”.

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Rafael está falando do seu texto A vida sem pornografia: conheça o movimento Reboot, onde o escritor e artista plástico de 30 anos descreve com dedicação sua experiência nesse movimento que, segundo ele, não significa abandonar o sexo ou a masturbação, e sim o hábito de consumir vídeos pornográficos na Internet todos os dias. Além disso, como ele conta, trata-se muito mais de uma proposta individual do que de uma mobilização coletiva.

Isso porque várias descobertas podem surgir dela.

Tantra: seu corpo tem algo prazeroso a lhe dizer

Como sugere Rafael, ao resguardar sua energia sexual, uma pessoa tem mais a trocar com a outra. “Não só o seu tesão”, ele diz, “mas também a sua atenção, presença e participação“. Ele conta ainda que, ao seu ver, é possível alcançar melhorias na saúde mental ao vivenciar essa experiência, ao se propor a estar de fato presente durante o sexo. “Vejo relação direta entre as coisas. Tanto no nível físico, das respostas do corpo, como no nível afetivo e energético, nas trocas de energia com outra pessoa”.

Qualquer semelhança dessa descrição com as sensações proporcionadas pela Yoga e por relações sexuais tântricas pode não ser mera coincidência. Na verdade, é incontável a quantidade de relatos de adeptos dessas práticas que testemunham a importância da presença, física e mental, e também da troca de energias, fluidos e afetos. O sexo tântrico, baseado numa filosofia de percepção sensorial, propõe justamente a plena consciência do momento real, em carne e osso, compartilhado com outra pessoa e vivenciado sem a busca desesperada pelo orgasmo.

É uma experiência corporal, mas também muito relacionada à mente. Por cunhar-se no tantrismo, que rejeita o modelo de satisfação guiado cegamente pela penetração, o sexo tântrico explora as sensações, os sentidos. Por isso, não cria um jogo compensatório, com roteiro programado, e sim um ciclo virtuoso, com descobertas a caminho. A conservação da energia sexual é fundamental nesse processo, porque estimula a presença e consciência das pessoas envolvidas, muito diferente do ciclo vicioso, instantâneo e solitário da pornografia na Internet.

A Yoga também pode ajudar nessa descoberta, porque também se trata de presença. Inclusive, chamando antes a atenção para o fato de que cada experiência é única e não pode ser vista como padrão, Rafael relata que “praticar Yoga e meditação em meio a uma rotina de masturbação é uma coisa, e fora dessa rotina é completamente outra coisa“.

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Ele acredita que, sim, práticas meditativas podem ser muito úteis, e recomenda principalmente aquelas que pedem um esforço físico maior, como dançar e correr, já que o silêncio e a imobilidade nem sempre geram automaticamente uma queda da atividade interna. “Pode ser muito difícil sentar de pernas cruzadas e fechar os olhos com um turbilhão explodindo dentro de si”, ele diz. Além disso, a importância da meditação, para ele, não tem a ver com o o momento ápice da prática, que pode ser muito difícil de descrever, mas sim com o momento em que a pessoa é levada de volta à “realidade”: “é assim que vou percebendo o quanto são ridículos os meus atos”.

Talvez você, leitor ou leitora, esteja passando por essa percepção neste exato instante, ao observar como se relaciona com a infinita pornografia disponibilizada na Internet e tudo o que desconhece sobre sua energia sexual e do que é capaz ao atentar-se a ela. Se sim, fique tranquilo/a, você não está só. As pessoas têm falado sobre o assunto e se ajudado em fóruns e grupos virtuais (como este aqui). A mesma Internet habitada por vícios conecta as pessoas no despertar.

Se você vai ser alguém melhor por parar de consumir pornografia? Rafael acredita que não. Para ele, ninguém se torna superior por isso, mas somente alguém que se libertou do hábito. “Apenas isso”, ele diz. No entanto, sobre a libertação, acrescenta: “claro que isso traz consequências interessantes”.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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