Revista Mandala

Temos mais medo de morrer ou de experimentar tudo o que a vida nos oferece?

Estamos evitando a dor a todo custo, mas isso é o que dói mais. Quando vamos aceitar a vida como ela é e desfrutar disso sem medo?

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Este artigo é uma tradução. Ele foi escrito originalmente por Charlie Ambler e publicado na plataforma Medium. Para acessar o texto em inglês, clique aqui.

Um dos grandes “objetivos” do Budismo é reduzir o sofrimento através da contenção do apego e do reconhecimento da impermanência de todas as coisas. Muitos interpretam esse desejo de reduzir o sofrimento como uma tentativa de evitá-lo completamente, o que é equivocado. As tradições religiosas que nos sugerem abandonar os apegos e desejos para não nos machucarmos muitas vezes conduzem a uma mansidão e a uma fragilidade em vez de incentivar nossa força.

Eu não defendo esse tipo de crença; vivemos no mundo real, não em um mosteiro, e não podemos evitar as situações e os problemas do mundo real. Não devemos temer a força para superar os problemas mais do que devemos temer a morte ou a desordem.

A morte não deve ser temida; é uma verdade inevitável, o evento singular que carrega a vida com todas as suas nuances e seu significado.

Você prefere não ter filhos ou experimentar a alegria e o sofrimento de criar crianças? Você prefere não ter dinheiro ou carreira ou sentir um pouco de ansiedade para alcançar a realização? O sofrimento pode ser bom algumas vezes; ele nos ajuda a viver mais intensamente. Mesmo a miséria mais profunda pode nos ajudar a crescer sobre nossas circunstâncias e encontrar a coragem necessária para experimentá-las plenamente.

A arte budista mais tradicional é simétrica, representando vários equilíbrios dualistas e sua transcendência – vida e morte, homens e mulheres, bem e mal, etc. Nós os reconhecemos para superar suas limitações.

Uma das minhas tradições budistas preferidas é o ritual de enterro tibetano em que o cadáver da pessoa é cortado e servido como alimento para abutres. É chamado de “enterro do céu” e busca encorajar a perspectiva de que o corpo é um vaso vazio para o espírito. A morte não deve ser temida; é uma verdade inevitável, o evento singular que carrega a vida com todas as suas nuances e seu significado.

Pensar sobre a existência física dessa maneira causa repulsa aos ocidentais, mas a verdadeira lição é perguntar-se por quê. Por que nos sentimos tão repelidos por esta cerimônia de morte natural? Porque nossa cultura está aterrorizada com a morte. Vemos a morte como um problema a ser evitado e não uma inevitabilidade de ser consciente.

Vamos colocar isso no contexto cultural. As pessoas modernas se sacrificam por empregos que não gostam e economizam para acumular uma aposentadoria onde não terão uma vida verdadeiramente saudável. Elas sabem, no fundo, que a felicidade que desejam é inatingível, e é por isso que criam rituais elaborados que adiam o contentamento de uma vida inteira e trabalham sempre para um futuro inexistente. Elas estão obcecadas com a busca da felicidade, não com a busca da sua realização, uma vez que isso exigiria se equilibrar.

Elas se dedicam a fumar, beber, comer mal, usar drogas, assistir pornografia e cometer violência. Elas gastam quantidades exorbitantes de dinheiro em tratamentos médicos desnecessariamente caros para atenuar as conseqüências de suas más escolhas. Estamos sempre distraídos, confortáveis demais ​​e obcecados com a alegria a todo custo.

Os pensadores zen que mais me atraem são aqueles que nos encorajam a viver com curiosidade e consciência no mundo real em vez de se retirar para a esterilidade de um espaço sagrado fora do mundo.

Aqueles que decidem viver com saúde muitas vezes acabam adotando uma abordagem militarista ou rancorosa, gastando muito dinheiro com aulas de ginástica, roupas, dietas e suplementos para viver um pouco mais ou para se sentir especial. Estamos aterrorizados com a morte e o sofrimento e, ironicamente, sofremos muito mais por esse medo do que com as próprias coisas inevitáveis e naturais da vida.

Os monges eram reverenciados em tradições antigas precisamente porque viviam fora do mundo ao qual todos nós estamos tão apegados. O ascetismo é o oposto do mundanismo. Os monges eram vistos como pessoas que sacrificavam suas vidas mundanas e transcendiam até um domínio espiritual superior. Eles foram respeitados porque, no final do dia, a maioria das pessoas não querem se tornar monges. Se quisessem, o número de monger no mundo seria absurdamente maior.

Nos tempos modernos, o ascetismo é altamente limitante, se não impossível. Se queremos realmente “escapar do sofrimento” devemos mudar radicalmente de vida e passar a viver em isolamento. Sem família, sem amigos, sem dinheiro, sem ideais. Quem quer esse tipo de vida? Os pensadores zen que mais me atraem são aqueles que nos encorajam a viver com curiosidade e consciência no mundo real, não se retirar para a esterilidade de um espaço sagrado fora do mundo.

Dogen iniciou esta tradição zen leiga, que perdurou com pessoas como Kodo Sawaki, Kosho Uchiyama e Taisen Deshimaru. Fora do Zen, especificamente, há pensadores como Chogyam Trungpa e Alan Watts, que nos encorajam a viver plenamente no mundo real em vez de nos esconder. A maioria das pessoas sofre profundamente; é a condição de estar vivo. Nós driblamos o bem com o mal e tentamos não pensar sobre as causas do sofrimento, já que achamos que é tudo sobre tentar evitá-lo ou não.

Todos nós morreremos; isso é libertador. Não há necessidade de deixar uma marca, de mudar fundamentalmente o tecido da existência. Tudo é o que é! Precisamos superar esse medo da inevitabilidade. É muito estúpido temer o que não podemos evitar.

Da mesma forma que existe uma dor física para alertar-nos sobre as lesões, podemos ver o sofrimento abstrato como um alerta sobre a oportunidade de crescimento.

Qual a melhor maneira de entender a impermanência do sofrimento do que experimentando-o verdadeiramente? Nós adquirimos a sabedoria quase que exclusivamente por causa da dor, do reconhecimento da perda, da compreensão da morte e da sensação de experimentar estados emocionais mais pesados. A calma e o prazer raramente nos proporcionam muita clareza fora da meditação.

Os momentos mais importantes da vida são, muitas vezes, os que doem mais profundamente. Da mesma forma que existe uma dor física para nos avisar sobre as lesões, podemos ver o sofrimento abstrato como um alerta sobre a oportunidade de crescimento. O crescimento não significa querer tentar se tornar algo ou outra pessoa. Muitas das mudanças que experimentamos na vida nos conduzem ao verdadeiro eu.

Estamos todos unidos nesta jornada individual rumo à verdade. A consciência nos permite reconhecer quem somos, remover nossas máscaras ilusórias e falsas e abraçar a vida pelo que ela tem a nos oferecer. Devemos fazer as pazes com a morte e com o sofrimento se quisermos aceitar a vida como ela é de verdade.

Todos os dias estão repletos de calmaria, caos, prazer e sofrimento. Há momentos maravilhosos e momentos horríveis. Quanto mais julgamos e classificamos essas experiências como “boas” ou “más”, mais caímos na ilusão. Não podemos ordenar que a vida nos dê apenas experiências felizes. Não podemos “resolver” a morte porque a morte não é um problema. É apenas um insulto aos nossos egos.

Sempre que tentamos combater a natureza dessa maneira arrogante, a vida responde ajustando-se para um equilíbrio entre “bom” e “ruim”. O equilíbrio é tudo; é por isso que as pessoas só podem “reduzir o sofrimento” tornando-se mais moderadas e temperadas em seus estilos de vida. Por que outro motivo todas as tradições religiosas do mundo e ao longo da história humana disponibilizariam lugares especiais de repouso e silêncio onde as pessoas podem ir para evitar o “mundo real”?

É com isso que precisamos fazer as pazes: o que nos faz sofrer não pode ser abolido. Não pode ser impedido. Quanto mais lutamos, mais difícil fica; é frustrante demais tentar acertar um inimigo que, por natureza, não desaparecerá. Este é o verdadeiro cerne da tradição Zen para mim.

Aceitamos tudo. O sofrimento profundo, o prazer profundo, o caos e a calma. Nós respiramos através disso tudo e deixamos que tudo isso nos conduza pela vida. Ou aprendemos algo ou desfrutamos a calma da mera existência. Sempre há algo a aprender, alguma oportunidade de nos entender melhor. Não somos nem pessimistas nem otimistas.

Nós apenas tentamos receber cada dia da maneira como somos capazes.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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