Revista Mandala

Uma linguagem do coração

Como a Comunicação Não Violenta desperta a empatia para conciliar conflitos e fortalecer relações.

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Por Marcia Pfleger

A comunicação verbal é a ponte necessária para conectar o sentimento e as ideias entre duas ou mais pessoas. Ocorre, no entanto, que essa ponte nem sempre é eficaz e assertiva, apresentando algumas falhas ou desequilíbrios que, às vezes, sequer transmitem segurança ou até mesmo vontade de atravessá-la  –  o que pode levar ao silêncio e ao isolamento, quando não ao conflito direto.

Em nome de uma comunicação realmente eficiente e empática, o psicólogo americano, Marshall Rosenberg, falecido em fevereiro deste ano, desenvolveu com sua equipe, ao longo dos últimos 50 anos, a abordagem da Comunicação Não Violenta (CNV), que está sendo usada para conciliar conflitos nas mais diversas situações como: ambientes de trabalho, entre pais e filhos, casais e até nações.  

couple-1210023_1280Num primeiro momento, pode-se pensar que se trata apenas de excluir da comunicação o tom agressivo ou as palavras ofensivas. Porém, é uma abordagem bem mais profunda e abrangente. “A Comunicação Não Violenta vai muito além do que se entende por técnicas de relacionamentos interpessoais”, esclarece Maristela Lima, que participou de diversas comunidades temporárias de aprendizagem sobre Comunicação Não Violenta, no Brasil, França, Suíça e Índia, e facilita vivências, grupos de prática e rodas de conversa sobre o tema, em várias cidades. “É um caminho de vida, que nos guia a nos relacionarmos de forma alinhada com princípios universais que conectam os seres humanos. Ela tem potencial de ampliar nosso poder de co-criar relações que impulsionem uma sociedade mais empática, justa e cooperativa, na qual os conflitos sejam uma oportunidade de nos re-humanizarmos e investigarmos aquilo que realmente importa”.

No lugar do outro

Segundo a pedagoga e consultora Edite Faganello, que também atua com CNV, em Curitiba, “a Comunicação Não Violenta, também chamada de comunicação compassiva, é um processo que envolve uma série de práticas simples e  transformadoras, permitindo conectar-se consigo mesmo e com as outras pessoas, de modo mais completo e profundo”.

Essas práticas, explica ela, apresentam quatro componentes orientadores para uma comunicação eficaz, fluida e mais humana: observar sem julgamentos ou avaliação; identificar os sentimentos que emergem ao observar aquela ação; reconhecer as necessidades ligadas aos sentimentos identificados; pedir o que deseja de maneira clara, com ações concretas que possam enriquecer a vida.

yosemite-valley-1031234_1280Aliás, os fatores “necessidade” e “empatia” têm grande destaque na CNV, na medida em que direcionam os praticantes a refletir profundamente, procurando quais são as necessidades reais por detrás de determinado apelo, para que a comunicação possa realmente ser uma ponte entre a pessoa e aquele(s) com quem se relaciona.

Uma ideia de como funciona na prática é citada por Maristela Lima. “Por exemplo, se digo ao meu companheiro algo como “você trabalha demais”, a probabilidade de ele se defender e se justificar é enorme – e isso enfraquece nossa capacidade de ouvir um ao outro”, observa.

“Então, se antes eu me conectar com meus sentimentos, buscando a necessidade real atrás deles, talvez descubra que estou me sentindo triste e sozinha, e isso pode me levar a perceber que preciso de mais companhia e apoio. Assim, conectada aos sentimentos, posso me expressar com uma chance maior de que isso não soe como cobrança ou acusação”. Nesse caso, sugere Maristela, a frase poderia ser: “Quando lembro que nesta semana você chegou depois das 21 horas todos os dias, eu me sinto triste e sozinha, porque no momento preciso muito mais de companhia e apoio  para cuidar do bebê”.

Ela destaca que, dessa maneira, a pessoa está se responsabilizando pelo que sente, abrindo um espaço interno para o diálogo e para buscarem, juntos, formas de cuidar do que é importante para ambos, fortalecendo a relação. “Ao assumir o que sentimos, assumimos que o outro é apenas um estímulo e não a causa última de nossos sentimentos”, esclarece Maristela.

pieces-of-the-puzzle-592798_1280Outras abordagens para usar a CNV no dia a dia, baseadas na observação e na conexão, deixando de lado os julgamentos, seria por exemplo, sugere Edite Faganello, perguntar: “você poderia me dizer como entendeu o que eu lhe disse?” (conexão), no lugar de “você não está entendendo nada do que eu digo” (avaliação). Ou então, dizer: “você não foi comprar os peixes” (observação), ao invés de “você está sempre desperdiçando tempo e não faz o que deve” (crítica).

As experiências com CNV mostram que as pessoas geralmente discordam de críticas por valorizarem as coisas de maneiras diferentes, mas fatos diretamente observáveis abrem espaço para uma comunicação empática.

Impactos da Comunicação Não Violenta

Maristela considera extremamente positiva a contribuição dessa abordagem em sua vida. “Hoje me percebo muito mais responsável, resiliente, atenta e sensível às minhas necessidades e às dos outros. Percebo a maioria de minhas relações num espaço onde há mais verdade: a verdade que existe em mim e em você, a vida que pulsa em nós”.

Já para Edite, “o maior impacto foi constatar que todos nós temos, basicamente, as mesmas necessidades, apenas utilizamos estratégias diferentes para atendê-las”. Ela também ressalta o fato de ser uma prática simples e útil, “mesmo quando a outra pessoa não a conhece, e por aspirar agir por meios eficazes a favor da paz”.

Para Felipe de Araújo Silveira, advogado, de Curitiba, a CNV também tem proporcionado resultados bastante positivos em sua vida. “Ela me auxiliou na capacidade de entender melhor minhas necessidades para tomar decisões, na qualidade de escuta e expressão, bem como na maneira de lidar com conflitos”, afirma.

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Ele conta que conheceu essa abordagem em 2012, num vídeo com uma explanação do idealizador Marshall Rosenberg. Mais tarde, leu um livro sobre o tema e passou a participar de vivências e grupos de estudo e prática de CNV. “O que me levou a fazer os cursos foi a necessidade de me expressar de forma mais clara e harmônica”, explica.

No entanto, segundo Maristela, a Comunicação Não Violenta não é algo que possa ser aprendida de um dia para o outro. “É preciso tempo e disposição para integrá-la em minha forma de agir e estar no mundo, e de olhar para mim e para os outros”, observa. O desafio, pondera ela, é a cada nova situação, a cada novo conflito, escolher estar alinhada aos princípios implícitos na CNV, buscando agir a partir desse lugar, onde a violência não é uma opção.

“Isso não garante que os resultados sejam de conexão imediata com o outro, mas vai me aproximando dessa conexão que, eu diria, é uma conexão com a essência da vida”, completa Maristela.

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Nos vídeos a seguir, o dr. Marshall Rosenberg aprofunda alguns tópicos da Comunicação Não Violenta. Assista como foi o surgimento desse conceito de comunicação empática:

Na sequência, o idealizador da Comunicação Não Violenta destaca a importância de uma abordagem que nos ensine a ouvir quais as necessidades reais que nossos sentimentos e os sentimentos dos outros  querem expressar:

Neste vídeo, o Dr. Marshall conclui sua explanação e explica os princípios que norteiam a Comunicação Não Violenta:

marciaEste artigo foi escrito por Marcia Pfleger, colaboradora da seção Teia no mês de janeiro de 2015.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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