Revista Mandala

Uma solução mindfulness para os problemas de cada dia: entrevista com o doutor em Psicologia Ronald Siegel

O professor na Faculdade de Medicina de Harvard e referência nos estudos de mindfulness fala sobre a prática na vida de quem enfrenta depressão e ansiedade.

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Esta entrevista foi realizada pela pesquisadora Elisha Goldstein e publicada originalmente em inglês no site Psych Central. Para consultá-la em inglês, clique aqui.

Autor do livro The Mindfulness Solution: Everyday Practices for Everyday Problems e doutor em Psicologia, Ronald D. Siegel é professor assistente na Faculdade de Medicina de Harvard, onde lecionou nos últimos 25 anos, membro do Conselho e da Faculdade do Instituto de Meditação e Psicoterapia e um estudante de longa data dos benefícios da atenção plena.

O Dr. Siegel é também co-editor de Mindfulness and Psychotherapy e co-autor do livro Back Sense: A Revolutionary Approach to Halting the Cycle of Chronic Back Pain. Ele atende em uma clínica privada em Lincoln, Massachusetts (EUA), e oferece aulas e palestras no mundo todo sobre atenção plena, psicoterapia e tratamento mente-corpo.

Dr. Ronald Siegel (Foto: Stress Stop/reprodução)

Na entrevista a seguir, o Dr. Siegel fala sobre como podemos trabalhar de forma atenta os momentos de estresse, ansiedade e depressão, possibilitando apoio a nós mesmos em situações difíceis do cotidiano.

Elisha: Ron, no seu livro, você fala sobre como a atenção plena pode ser um caminho para que nos tornemos compreendedores dos nossos medos e possamos até mesmo encontrar uma nova luz na tristeza ou na depressão. Você pode falar mais sobre como isso funciona?

Dr. Siegel: As práticas de atenção plena são úteis para lidar com uma grande variedade de dificuldades psicológicas, incluindo a ansiedade e a depressão. Isso levanta uma questão interessante: o que esses problemas podem ter em comum? As práticas de atenção plena podem chegar até esse fator comum?

A tristeza é algo vivo e fluido, uma parte essencial da vida plena, e a depressão é algo morto e incapacitante que se intromete no meio do caminho da vida.

Muita polêmica e discussão surgiu entre os pesquisadores e clínicos que estiveram envolvidos no desenvolvimento da mais recente versão do DSM – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Foi uma guerra entre pesquisadores de duas correntes de pensamento diferentes. Uma delas acredita que a principal limitação no nosso sistema de diagnóstico atual é que estamos misturando maçãs e laranjas (defendem que precisamos de mais categorias de diagnóstico para identificar com precisão os problemas psicológicos). A outra, diz: “Isso é loucura, é como olhar para as árvores e esquecer que elas formam uma floresta. Esse processo ignora o que tantos problemas de saúde mental têm em comum entre si”. Então, a primeira corrente perguntou o que seria que estão ignorando, e a segunda respondeu: “evitação experiencial“.

O que significa evitação experiencial? É a tendência natural que todos temos de nos afastarmos daquelas experiências potencialmente dolorosas. E verifica-se que, de fato, isso é algo que a ansiedade e a depressão têm em comum.

Enquanto as pessoas que lutam contra a ansiedade mergulham em seus pensamentos preocupados, nos batimentos cardíacos rápidos, na tensão muscular e em outros sinais de excitação fisiológica problemática, a maioria dos profissionais de saúde mental percebem que são justamente nossas manobras de escape que são as principais causas da maioria dos transtornos de ansiedade.

Por exemplo: se alguém tem medo de falar em público, viajar de avião ou se contaminar com germes de banheiros públicos, o problema não são essas situações em si, não são elas que geram a ansiedade, mas o fato de a pessoa começar a evitá-las, temendo falar em público, voar e usar o banheiro.

Ajudando-nos sentir a tristeza (e outras emoções) de verdade, a atenção plena pode impedir que fiquemos presos na depressão.

Uma vez vi um astronauta sendo entrevistado por um ator que iria interpretá-lo num filme. O ator queria entrar na cabeça do astronauta para que pudesse reproduzi-lo fielmente. Ele perguntou: “Como você teve coragem de voar naqueles aviões não testados? Eu teria morrido de medo“. O astronauta respondeu: “Claro que eu estava morrendo de medo toda vez que subia em um daqueles. Mas a coragem não é não sentir medo, é fazer o que tem que fazer mesmo assim“.

Há uma série de exercícios específicos que podemos usar para desenvolver esse tipo de coragem no capítulo sobre preocupação e ansiedade no The Mindfulness Solution. Você também pode aprender muitos destas técnicas online em www.mindfulness-solution.com.

Curiosamente, depressão tem muito em comum com ansiedade. Eu sempre pergunto aos psicoterapeutas o que, na opinião deles, é a diferença entre tristeza e depressão, e eles dão várias respostas. Às vezes, eles sugerem que a depressão dura mais do que a tristeza. Mas eu ressalto que é perfeitamente possível sentir-se triste por dias seguidos e ainda estar bastante deprimido por apenas algumas horas. Então eles sugerem que a tristeza surge em resposta a eventos externos, enquanto a depressão vem de dentro e tem uma vida própria. Mas eu lembro-lhes que podemos ficar muito deprimidos após um infortúnio, como a perda de um emprego ou o fim de um relacionamento, e ainda podemos ficar tristes sem uma causa aparente.

Enquanto estamos tentando não sentir tristeza, irritação ou alguma outra emoção, tendemos a desligar e a não sentir nada de verdade.

Finalmente, depois de alguma discussão, eles chegam à conclusão de que a tristeza é algo vivo e fluido, além de ser uma parte essencial da vida plena, enquanto a depressão é algo morto e incapacitante que se intromete no meio do caminho da vida. Perceber isso nos conduz a outra surpresa: ao nos ajudar a sentir de fato a tristeza (e outras emoções), a prática de atenção plena pode impedir que fiquemos presos na depressão.

Mais uma vez, vemos como um problema psicológico tem tudo a ver com a evitação experiencial. Enquanto estamos tentando não sentir tristeza, irritação ou alguma outra emoção, tendemos a desligar e a não sentir nada de verdade. E nosso corpo está em constante estado de estresse enquanto estamos tensos, tentando manter esses sentimentos à distância. Esse estresse contribui para as dificuldades do sono, do apetite, da concentração e de se sentir motivado, o que tem relação com estar deprimido.

As práticas de atenção plena, que possibilita nos abrirmos para todas as variedades de emoções que existem no momento presente, trabalham contra esse padrão depressivo. Elas nos ajudam a viver cada momento no sentido mais pleno, mais vivo.

Outra forma da atenção plena ajudar a trabalhar com ansiedade e depressão é afrouxando nossa confiança em nossos pensamentos. Tanto o comportamento ansioso quanto o depressivo envolvem muito pensamento doloroso. Com ansiedade, nos preocupamos com o futuro; na depressão, podemos lamentar pelo passado ou estar cheios de pensamentos negativos e autocríticos. Uma vez que as práticas de atenção plena trazem a atenção para as sensações do presente, saindo do fluxo de pensamento, elas ajudam a afrouxar nossa preocupação com os pensamentos negativos, tornando mais fácil não dar tanto crédito a eles.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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