Revista Mandala

É possível viajar sem dinheiro?

Uma viagem autossustentável requer peito aberto, empenho e muita, muita atenção.

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Conhecer o mundo é quase sempre um dos primeiros itens entre as 30 coisas para se fazer antes dos 30. E existe pelo menos duas maneiras de se realizá-lo: com ou sem dinheiro. Ambas as opções são extremamente prazerosas nas peculiaridades que proporcionam, mas cada uma funciona melhor para esse ou aquele perfil de viajante, turista, peregrino ou qualquer outra forma de vida perambulante tocada por sintomas de dromomania, o vício em viajar.

As pessoas são diferentes, buscam experiências distintas e vivem realidades específicas. Algumas, por exemplo, não são tão ambiciosas – ficam satisfeitas em conhecer seu continente, seu país ou apenas seu estado. Outras não se importam em alcançar a meta dos dezoito anos lá pelos quarenta, cinquenta… Às vezes a rotina, a família e o emprego não possibilitam viagens na juventude. E, independente da idade, tem ainda aqueles que se enveredam pelas estradas com o dedo arrebitado no acostamento e aqueles que voam de primeira classe e colecionam um inacreditável saldo de milhas.

Viajar, afinal, é democrático. Há muitas possibilidades mundo afora. Seja na estrada de terra, na pista de pouso ou no cais, quem está a caminho de São Luís do Maranhão tem o mesmo carimbo da liberdade de quem está indo para Joinville, em Santa Catarina. É claro que é impossível atravessar o oceano a pé ou de carro, e também é necessário uma certa reserva financeira para uma viagem ao exterior. Mas é possível viajar. Melhor ainda: é possível viajar de bolso vazio. Tudo depende de como você se organiza, dos instrumentos que usa e dos destinos que procura.

Os três Ws do viajante autossustentável

Nem todo mundo está acostumado a viajar sem dinheiro. Mas, principalmente, nem todo mundo está acostumado a viajar sem certezas. Uma viagem pode ser mais que uma simples locomoção geográfica e se transformar em uma fuga – proposital ou não – da zona de conforto dominante. Não é possível pensar em viagem sem pensar em imprevisto. Muitas pessoas, especialmente iniciantes da estrada, não conseguem conceber a ideia de viver o tempo presente da sua experiência e se perdem em esperar muito pelo pior ou pelo melhor, de forma que não se aproveita o que é e está. Mas uma viagem livre de infortúnios é tão provável quanto ser aprovado de primeira no detector de metais do aeroporto.

Por isso nos apegamos tanto ao dinheiro. Com ele é possível se hospedar em um bom hotel, com segurança e aconchego. É possível se alimentar bem, fazer bons passeios, participar da programação turística das cidades. Na hora do aperto, o dinheiro paga um táxi, um teto ou até mesmo uma passagem de volta.

No entanto, nem todos contam com essa facilidade. Peregrinos e malucos de estrada – como são conhecidos os hippies modernos – que habitam as rodovias, os caminhos e as trilhas do nosso planeta, estão acostumados a lidar com a adversidade financeira e durante muito tempo se sustentaram com o artesanato e serviços gerais encontrados casualmente por onde passavam. Hoje, contudo, eles – e todos os demais tipos de viajantes – têm ao alcance de um clique pelo menos três opções de auxílio ao planejamento: WWOOF, Workaway e Worldpackers.

A World-Wide Opportunities on Organic Farms (WWOOF) é uma rede instalada em mais de 100 países e promove o trabalho voluntário. O WWOOFer, aquele que possui cadastro no programa, geralmente trabalha com cultivo orgânico e em troca de seus serviços recebe hospedagem e alimentação. Não há qualquer tipo de envolvimento financeiro. E é muito fácil se inscrever. Cada país tem um cadastro e mediante o pagamento de $38 (em média R$90) o inscrito recebe uma lista com os endereços e contatos de todas as localidades daquele país onde é possível se voluntariar. O cadastro vale por um ano e pode ser consecutivamente renovado desde que o WWOOFer se mantenha atento a algumas exigências da rede, como pontualidade às datas de início e término dos trabalhos – a serem combinadas diretamente com as fazendas, ecovilas ou demais organizações associadas.

 

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Página oficial do WWOOF onde é possível visualizar no globo a localidade desejada

Assim como o WWOOF, o programa Workaway oferece aos viajantes autossustentáveis experiências de voluntariado em fazendas e cidades de todo o mundo. É possível, inclusive, em vez da essência de agricultura proposta pelo WWOOF, passear em uma metrópole com cachorros de um associado à rede. São muitas as formas de trabalho, embora as mais comuns ainda sejam exatamente as que pedem um período de residência mais longo e oferecem hospedagem e comida em troca do manejo rural.

A estudante Katiusca Alves, 27, que esteve durante todo o mês de fevereiro em uma experiência de Workaway, menciona a sensação de estar em um intercâmbio dentro do Brasil. ”Conheci voluntários de várias regiões do mundo. Vários viajantes, muitas histórias e peculiaridades”, ela conta, ainda hospedada no Source Temple, em Cunha (SP), uma comunidade associada à rede.

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Homepage do Workaway Info, que fornece detalhes sobre a rede

Além do Workaway e do WWOOF, uma plataforma virtual idealizada por brasileiros possibilita ao viajante trabalhar em albergues em troca de hospedagem, comida e até uma ajuda financeira, em alguns casos. É o Worldpackers, premiado em 2014 na 10ª edição do Starup Farm, em São Paulo. Seu slogan, “experiências de viagem que o dinheiro não pode comprar”, já diz tudo sobre a iniciativa. Ao se cadastrar gratuitamente no site é possível acessar a lista de todas as cidades do mundo onde albergues aceitam o serviço. Então, criando seu perfil (onde descreve suas habilidades, experiências e interesses), o viajante pode escolher algumas cidades que pertencem ao seu itinerário. Quando há uma combinação, ou seja, quando um albergue encontra o perfil do cadastrado e se interessa, o site providencia o contato entre voluntário e empregador por meio de um bate-papo.

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Equipe idealizadora do site Worldpackers. Foto: Divulgação.

O cálculo irracional do Couchsurfing

Você já imaginou se hospedar na casa de alguém que não conhece sem pagar absolutamente nada por isso?

Em tempos de individualismo, o senso comum da desconfiança e do super conforto é compreensível, mas não necessariamente fácil de engolir. Há uma conta que, baseada nas características da sociedade que habita os grandes centros urbanos, não faz o menor sentido para muitas pessoas. É uma conta incomum, onde há mais multiplicadores do que a mentalidade moderna é capaz de assimilar: a da solidariedade. Apesar de tudo, é um cálculo muito simples. E ele só se torna difícil de compreender porque não envolve dinheiro.

Muitos roteiros têm como foco a visita a cidades grandes ou turísticas, e nem todo mundo pode ou deseja trabalhar em troca de hospedagem. Nesse caso, graças ao Couchsurfing (algo como “surfando de sofá em sofá”, em inglês), a única moeda de troca é o compartilhamento da história de vida do viajante.

Criado em 2003 por Casey Fenton, o site, que funciona como uma rede social, é a ponte entre viajantes do mundo todo e pessoas que se dispõem a abrigá-los. Tudo de graça. Na maioria dos casos, o surfer, aquele que é hospedado, come, bebe e até lava suas roupas sem tocar no bolso. Em 2012 o site atingiu a marca de 1 milhão de usuários espalhados por mais de 180 países – pessoas que viajam de forma econômica, que gostam de compartilhar histórias, que enxergam a solidariedade como a maior moeda de intercâmbio cultural do mercado de passaportes e bilhetes.

A jornalista Ana Lígia dal Bello, 27, é membro do Couchsurfing desde 2010, quando hospedou uma russa em sua casa, na cidade de São José dos Campos, em São Paulo. Ela conta que a experiência abriu portas para novas possibilidades em sua vida e desde então já hospedou uma canadense, um ucraniano, um alemão e um brasileiro do interior de Minas. “Me agrada a ideia de colocar gente estranha dentro de casa. Rola confiança. Para mim todo mundo é bom até que se prove o contrário”, ela diz.

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Ana Lígia dal Bello e sua hóspede canadense, Émilie Bréton-Cotê, em uma lanchonete do Brás, em São Paulo. Foto: arquivo pessoal.

A reforma monetária da Terra: Por que sustentabilidade?

Em 2011, o filósofo e escritor Charles Eisenstein questionou a imortalidade do capital em sua obra Sacred Economics (“economia sagrada” em português, sem tradução oficial). Segundo ele, não é mais possível sustentar o sistema monetário que impera no planeta desde o século passado e, senão mediante a um reformulação na forma de ser humano, as crises acarretarão em uma falência de proporção mundial e cada vez mais difícil de ser revertida . No ano seguinte à publicação do livro, o cineasta Ian MacKenzie – que esteve diretamente envolvido, ao lado de Eisenstein, em movimentos como o Occupy Wall Street, de 2011 – dirigiu um curta-metragem baseado na obra.

Eisenstein sugere um novo mecanismo de circulação do dinheiro, que inclui uma série de mudanças “de modo que não possamos continuar a poluir para que alguém ou as gerações futuras paguem o custo”. De acordo com ele, o novo modelo econômico da Terra deve incluir “um dividendo social: compartilhar a riqueza proveniente do que deveriam ser bens comuns — a terra, aquíferos, nossa herança cultural”. Ou seja, é preciso aprender a trocar em vez de comprar, visto que o dinheiro na forma como é usado atualmente não tem produzido benefícios nem àqueles que sempre tiraram vantagem desse sistema. Afinal, quando todos os recursos do planeta se esvaírem, nem o maior magnata poderá comprar outra Terra para viver.

Uma viagem autossustentável se trata exatamente dessa ideia de integração. Fora de casa o viajante pode ser acometido por medo e insegurança. Saber que é um ser pequeno num mundo gigantesco não ajuda muito a não ser que outros seres pequenos se juntem e todos eles possam construir uma rede de cidadania e afeto, ou no mínimo de empatia. O ato de viajar  pode ser alvo da concepção normótica que ataca muitos tabus sociais: o modo mais convencional é sempre a primeira pedida, de forma que roteiros e meios alternativos são vistos como frutos de rebeldia, loucura ou instabilidade. A cultura do mochilão, que foi febre em países como os Estados Unidos durante a Geração Beat dos anos 1960, é pouco debatida no Brasil, onde a maior parte da população ainda engatinha rumo a uma perspectiva livre dos estigmas sociais que cercam os viajantes alternativos.

Mas iniciativas como WWOOF e Worldpackers, que de fato funcionam no país para quem a elas recorrem, trazem os primeiros assobios desse vento que espreita a pós-modernidade: é possível (e preciso) transformar o dinheiro em instrumento em vez de deixá-lo reinar invencível no trono de nossos comportamentos destrutivos. Como declara Ana Lígia, “aprender um pouco sobre uma pessoa e o que ela traz da cultura dela, aprender sobre o próprio lugar onde se vive antes de dar uma opinião, querer sair da zona de conforto e ter um irmão ou irmã, ainda que só por três dias, é o mais motivador. Desmistificar o Brasil, mostrar lugares legais, fazer perguntas e permitir uma troca é muito inspirador”.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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