Revista Mandala

Viver sem dinheiro é possível?

Muitas pessoas têm adotado um estilo de vida onde o dinheiro não entra. Mas será que é assim tão simples? O que elas têm a dizer?

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Por protesto ou ideologia, cada vez mais pessoas de todas as partes do mundo deixam para trás carreira, dinheiro e conforto para viver no que chamam de desapego total de bens materiais. Voluntariamente ou não, quem escolhe viver sem dinheiro acaba se transformando em uma espécie de missionário na luta contra o consumo de massa e o desperdício e transforma a solidariedade no motor da vida.  Immanuel Kant já dizia: “Não somos ricos pelo que possuímos, mas sim pelo que podemos fazer sem posses.”  Não faltam exemplos de pessoas que abriram mão do dinheiro. Basta uma pesquisa na internet para encontrar nomes como o de Mark Boyle,  ex-economista irlandês de 34 anos;  Daniel Suelo, o eremita americano de 51 anos;  Heidemarie Schwermer, ex-psicoterapeuta alemã de 71 anos e Raphael Femmer, alemão de 30 anos. Todos eles com histórias muito interessantes para contar.

Mark Boyle foi um dos pioneiros desse estilo de vida desprendido ou eco-radical.  Cansado de procurar trabalho e por achar que o modelo econômico atual estaria destruindo a natureza e arruinando a vida dos semelhantes, em novembro de 2009 o ex-economista decidiu viver sem dinheiro.  Da cidade grande se transferiu ao interior onde vive até hoje num motorhome doada por um amigo.  Boyle passa o tempo se ocupando da horta e de algumas árvores frutíferas que lhe fornecem alimentos.  O ex-economista trabalha, mas não recebe um salário, ele doa seu tempo fazendo voluntariado.  Suas roupas e sapatos e outros gêneros de primeira necessidade vem dos bancos de trocas que organiza na cidade. Apesar da vida simples, ele não abre mão das tecnologias, porém o celular e o computador são carregados com a energia limpa de um painel solar que comprou antes de abandonar o dinheiro.

Mark Boyle abandonou o antigo estilo de vida para recomeçar com novas perspectivas de mundo (Foto: Reprodução)

 

Da sua experiência nasceram o livro The Moneyless man,  um verdadeiro manual de sobrevivência para uma vida sustentável;  uma página no Facebook, onde troca  conselhos e responde a perguntas e pedidos de informação e a comunidade virtual StreetBank, que hoje conta com mais de 50 mil inscritos em 171 países.  Os princípios da freeconomy são simples:  compartilhar e doar habilidades, tempo, afeto, etc, sem esperar nada em troca.  

O americano Daniel Shellabarger, em 2000, renunciou completamente a tudo inclusive seu nome. Passou a se chamar Daniel Suelo e foi morar em uma caverna na cidade de Moab, que fica no estado de Utah, nos Estados Unidos. Para ele, o dinheiro é uma armadilha e as pessoas devem fugir assim que tiverem uma oportunidade. O dinheiro seria a principal razão das guerras entre os homens e o acumulo de objetos colocaria em dificuldade nossa própria existência, visto que o prazer que sentimos  ao comprar algo é momentâneo. Suelo se alimenta com o que cresce na terra e com o que encontra pelas ruas (restos de animais mortos atropelados nas estradas). Apesar de levar uma vida desprovida de tudo, assim como Boyle, ele usa a internet para se comunicar com o mundo.  Através de seu blog troca mensagens e responde a perguntas do tipo: “Você é um extremista e acredita que o dinheiro seja o diabo?”

daniel-sueloSolidariedade na cidade grande

Talvez seja mais fácil levar uma vida desprendida de tudo no campo como Boyle ou Suelo. Mas existem experiências nas grandes cidades, como Berlim, por exemplo. É no coração dessa metrópole que vivem a senhora  Schwermer e o jovem Fellmer com sua família.  Dezoitos anos atrás, a alemã Heidermarie Schwermer decidiu viver sem dinheiro porque acreditava que poderia recuperar o sentido de humanidade que se perdia na corrida maluca pelos próprios interesses pessoais.  Em 1994,  ela fundou um círculo de troca de bens e serviços onde dinheiro não entrava.  Viajava de uma cidade a outra em busca do que trocar.  Foi a partir dessa experiência que, em 1996, decidiu abandonar de vez o dinheiro e doou tudo o que tinha consigo: casa, roupas, carro. Desde então tudo o que lhe serve está numa mala de mãos que ela leva de um lugar para outro.  Schwermer escreveu um livro e começa a girar pela Alemanha e Europa para contar sua história e dar esperança às pessoas.  “Quando eu comecei a viver sem dinheiro poucas pessoas me deram crédito, mas estou feliz porque sei que minhas ideias se espalharam pelo mundo,” diz.  A simpática alemã também é a estrela e protagonista do documentário Living without money.

heidemarie-schwermerJá o alemão Raphael Fellmer e sua companheira, a espanhola Nieves Palmer, 28 anos, decidiram há quatro anos fazer greve de dinheiro e renunciaram as mordomias de uma família pequena burguesa para viver com o filho de dois anos e o que está por chegar – Palmer está grávida do segundo filho – no porão da casa de um médico.  O aluguel é pago com pequenos trabalhos de reparação em casa e no jardim; a roupa e a mobília, são obtidos por meio de escambo ou doações; para se locomover vai a pé, de bicicleta ou de carona.  Mas a atitude mais fantástica que Fellmer fez com sua greve de dinheiro contra o desperdiço de alimentos foi ter iniciado um brilhante sistema para a valorização de resíduos de alimentos diretamente nos supermercados. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado, o que significa 1,3 milhões de toneladas por ano. Na Europa o desperdício chega a 40-50% dos alimentos que estão no mercado.  Cada europeu joga no lixo 179 Kg de comida por ano.

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Raphael, Nieves e o filho do casal. (Foto: reprodução)

Em parceria com programadores, consultores e especialistas da web, Fellmer montou uma plataforma chamada FoodSharing para exportar seu modo de vida:  a definição é a de uma verdadeira rede social baseada na poupança de alimentos, onde as pessoas interessadas podem organizar reuniões e recuperar produtos que as lojas de orgânicos e empresas oferecem a plataforma ao invés de jogá-los no lixo. Hoje, a FoodSharing conta com cerca de 52 mil  participantes e a rede de supermercados que doa alimentos está literalmente espalhada por todo país, em 227 cidades alemãs.  Alguém se habilita a fazer o mesmo no Brasil?

13435455_10153952090378318_6918993647538586851_n Este artigo foi escrito por Janaina Cesar, colaborador da seção Eco no mês de dezembro de 2014

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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