Revista Mandala

Você sabe qual a relação entre inconsciente coletivo, campos mórficos e constelações familiares?

Entrelaçar esses conceitos sobre os labirintos da mente humana é um feito do século 21 que a humanidade jamais se esquecerá de ter alcançado.

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A história da psicologia é uma erupção de conquistas que se alinha à história da própria humanidade. Assim como nas demais áreas científicas e contemplativas, cada geração se encarregou de aperfeiçoar as teorias deixadas pelos pensadores anteriores. Mas, com um objeto de estudo tão impermanente quanto a condição humana, a psicologia precisou trabalhar dobrado para chegar onde chegou.

E onde ela chegou?

Dos deuses gregos a Jung, de Charles Darwin à ressonância mórfica e dos filósofos gregos a Freud, estamos ainda nos primeiros passos. Como descreveu Hermann Ebbinghaus, um dos primeiros psicólogos experimentais de que se tem registro, “a psicologia possui um longo passado, mas uma história curta”. E, ainda que recente, estamos falando de um legado poderoso.

Compreender a a mente e o comportamento de uma espécie tão estupidamente simples e magnificamente complexa como a humana não é um esporte de muitos atletas titulares. E, geralmente, o time seguinte assume o campo onde o time anterior se esbaldou.

Nesse campeonato sem fim, conceitos relativamente modernos como os de inconsciente coletivo e de campos mórficos têm sido cada vez mais debatidos e desbravados, a ponto de hoje serem utilizados para melhorar de forma prática e consciente a vida das pessoas.

Mas você sabe do que estou falando?

Se não, prepare-se.

O inconsciente coletivo mandou eu escolher esse daqui

Você é uma pessoa muito tranquila. Não gosta de ter pressa, sabe esperar, presta atenção no que faz… Tudo isso faz parte de você naturalmente em seu estado inalterado. No entanto, toda vez que você vai visitar sua irmã, algumas coisas mudam. Seus pés tamborilam no chão, você gostaria de chegar mais rápido nos lugares e o dia passa sem que você tenha notado o que aconteceu.

Isso acontece porque você adentrou um ambiente diferente, uma cidade diferente, onde as pessoas se comportam de uma forma distinta daquelas que cruzam seu caminho na sua cidade de origem. Lá, as pessoas geralmente não precisam correr, o trabalho fica a vinte minutos a pé. Agora, aqui na cidade grande onde sua irmã mora, as pessoas levam duas horas de ônibus para chegar às sete da manhã onde precisam.

Ou seja, a maneira como as pessoas as seu redor estão experimentando o mundo influencia no seu próprio comportamento. Você acaba de entrar numa conexão nova, num circuito diferente, e seu corpo responde a isso de imediato. Agora, seus sentidos se voltam para a percepção de um ser urbano, que cumpre tarefas e tem horários, um perfil que a maioria das pessoas reproduz nos tempos contemporâneos.

Quem registrou a percepção desse fenômeno e a chamou de “inconsciente coletivo” foi Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço que fundou os estudos em Psicologia Analítica. Como ele mencionou mais de uma vez em seu trabalho, a concepção dessa ideia deixou um legado enorme às constantes releituras de vários fenômenos históricos, culturais, antropológicos e clínicos.

Carl Gustav Jung (1875-1961) é considerado o fundador da Psicologia Analítica e o primeiro a se aproximar tanto de um esclarecimento sobre o conceito de inconsciente coletivo (Foto: reprodução)

Ao abordar esse tema, porém, Jung preferia sempre se basear no maior número possível de fatos empíricos, pois sabia que muitas pessoas não conseguiam visualizar o conceito que ele estava propondo. De acordo com ele, isso acontecia simplesmente porque elas não se dedicavam à fenomenologia do inconsciente, não se atentavam às percepções mais sutis.

O que dá vida ao inconsciente coletivo?

Esse fenômeno, de acordo com o próprio Jung e com profissionais da ciência contemplativa, não é exatamente vivo, mas o efeito dormente do comportamento de gerações. Para estudiosos da área, trata-se de algo que foi descoberto graças aos conceitos de vida e morte debatidos pelo neurologista fundador da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939) depois que Jung as relacionou com os processos incessantes de apropriação de esteriótipos comportamentais.

Isso significa que o que, de certa forma, “sustenta” o inconsciente coletivo são os arquétipos, perfis pré-estabelecidos que acompanham determinadas posições sociais e culturais. Segundo Jung, uma criança já nasce com um potencial para exercer um determinado arquétipo funcional em seu grupo, algo que vai se desenvolver de acordo com as interações experimentadas. A partir desse movimento, forma-se o inconsciente pessoal, quando a criança cresce pensando em ser “aquela pessoa”, em exercer “aquela atividade”.

O inconsciente pessoal individualizado, como explica a psicóloga e consteladora familiar Tereza Brandão, ainda possui as pés nas definições de Freud sobre o comportamento humano. Depois dele, com Reich e Jung, o umbigo perdeu o protagonismo para o organismo inteiro, e para algo além: a ação conjunta dos organismos que se relacionam.

Por isso, o inconsciente coletivo seria transpessoal, formado pelos antigos e novos modelos comportamentais que a humanidade cria e renova de tempos em tempos. Desenvolvedora de Constelações Familiares e Sistêmicas Integrativas com formação na Alemanha e na Áustria, Tereza cita o exemplo do ferreiro, profissional com habilidades manuais muito importantes até alguns séculos atrás. “Não sei o que ele faz hoje em dia.. Ele é um designer, um empreendedor?”, ela questiona. “Uma tendência pode evoluir conforme vai evoluindo a humanidade”.

Nas palavras de Jung, o inconsciente coletivo “não são aquisições individuais, são essencialmente os mesmos em qualquer lugar e não variam. Este inconsciente é como o ar, que é o mesmo em todo lugar, é respirado por todo o mundo e não pertence a ninguém”.

Mas o que é um arquétipo mesmo?

Estamos constantemente lidando com perfis comportamentais que já existiam antes de pensarmos que os criamos ou que os reconhecemos pela primeira vez. A concepção que temos de nós mesmos (e que as outras pessoas têm de nós) é resultado de uma equação antiga que foi montada, porém não resolvida, há milhares de anos.

Agora, estamos muito perto de decifrá-la.

Tereza conta que viu, certa vez, uma escultura de uma mulher grávida que mantinha uma das mãos no ventre e a outra segurando a lua. Para ela, a arte tem grande influência na construção e manutenção desses arquétipos, inclusive em um dos mais consolidados: o arquétipo materno.

Os conteúdos desses arquétipos (“ferreiro”, “designer”, “mãe”, “mulher”) pré-determinam várias ações do cotidiano, inclusive dentro de casa. Afinal, de acordo com Jung, não só trazemos a memória comportamental de nossos ancestrais, como desenvolvemos nossa própria experiência na bolha em que estamos inseridos naquele momento.

Os arquétipos se manifestam na forma de modelos que representam determinados grupos, como o das mulheres, e que podem se desdobrar de acordo com as referências culturais e religiosas do indivíduo (da esq. para a dir., as esculturas são de Michelângelo, autoria desconhecida e Philippe Faraut)

Lembra-se de como você muda quando está na cidade da sua irmã? O mesmo acontece em uma família, considerando que uma casa é também um organismo de interações comunicacionais. Às vezes, quando alguém está muito nervoso ou muito triste, isso influencia na sensação de habitar a casa como um todo.

É quando os conceitos começam a se cruzar.

Pai é pai, mãe é mãe? O inconsciente coletivo no contexto familiar

“A família é permeada pelo mito”, afirma Tereza. A psicoterapeuta sistêmica de famílias também chama a atenção para o poder do arquétipo. Na concepção de Jung, os arquétipos são “imagens primordiais”, padrões de comportamento que os temas mitológicos sustentam por meio de contos e lendas que se assemelham muito, mesmo oriundos de épocas e culturas diferentes.

Tereza não tem dúvida sobre o poder do arquétipo: “ele tem o poder de influenciar até o feminino e o masculino”, ela observa.  Por isso, tanto profissionais da psicologia quanto estudiosos das ciências contemplativas concordam que o papel exercido por cada membro da família é algo construído, cujo percurso histórico vem de datas muito, muito antigas.

Agora, vamos olhar para tudo isso sob perspectivas cruzadas. De que forma os conceitos e as aplicações de inconsciente coletivo, campos mórficos, constelações familiares e até das chamadas constelações arquetípicas têm ajudado a humanidade a se conhecer melhor?

Para responder a isso, primeiro é preciso falar sobre uma das hipóteses mais revolucionárias da biologia contemporânea: a da ressonância mórfica. De acordo com a teoria levantada e embasada pelos experimentos do biólogo e bioquímico inglês Rupert Sheldrake, as mentes de todos os seres vivos se conectam em uma unidade de interação, como uma central de atendimento única.

Veja o que acontece nessa central na segunda parte da reportagem. Em breve!

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

comentário

  • Gostei muito do texto, a relação entre inconsciente coletivo, campos morficos e constelações familiares mostra-se muito coerente, esse estudo merece ser aprofundado.

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