Revista Mandala

Monja Coen: “Você se conhece?”

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Esse é um texto da Monja Coen Sensei, publicado no Jornal O Globo em março de 2015. Monja Coen nasceu em São Paulo, capital, no ano de 1947, e os percursos de sua vida a levaram desde o exercício do jornalismo como profissão até retiros e treinamentos em mosteiros. Escritora, budista e retirante, ela atualmente reside no templo Tenzui Zenji, em São Paulo, onde é presidenta do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil e do ViaZen/VilaZen do Rio Grande do Sul.

Você Se Conhece?

É preciso cuidado. Buda dizia que a mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assaltantes vingadores.

O carnaval passou, mas ainda continua.

Há carros alegóricos desfilando pelas ruas, com policiais e bandidos, traficantes e perdidos.

Há fantasias remendadas de plumas e brilhos nas pessoas que se emplumam para defender o indefensável.

O roto fala do rasgado.

Imaginam façanhas que se tornam vergonhosas artimanhas.

Acham-se salvadores da pátria. Mas é a pátria que nos salva a todos.

Hitler se achava um homem bom — queria a pureza da raça. Exterminador brutal, representante de uma grande parte da sociedade de sua época. Vergonha.

E muitos se calaram. Porque “não era comigo”. Até que venham bater à sua porta e, então, será tarde demais.

Os homens de barbas e capuzes negros que degolam e queimam pessoas em nome da fé e do estado — será que eles se consideram errados? Será que se acham salvadores do mundo? Quebrando obras de arte, patrimônio da humanidade?

É preciso cuidado.

Cuidado de cuidar com respeito e dignidade.

Buda dizia que a mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assaltantes vingadores. Você observa sua própria mente? Você se conhece e reconhece as manobras da politicagem mental, física e social?

É preciso acordar, despertar. Compreender as razões pelas quais as notícias nos são passadas. Regionais, nacionais, internacionais.

Há tanta gente boa no mundo.

Há tantos projetos que deram certo, que dão certo e nunca sabemos.

Escondido o bem, o mal se revela vitorioso.

Cada pessoa procurando pelos erros e faltas alheios. Nos telhados de vidro. No grande telhado de vidro que nos cobre a todos, em todo o planeta. Jogamos fezes e lixo para o alto, caem sobre nós mesmos.

Mas há flores e fragrâncias.

Há idosos e crianças felizes.

Há pessoas comprando nas lojas alimentos, roupas, automóveis, flores, presentes, encantamentos. Há quem não apertou o gatilho.

Há o policial que ajudou o bebê a nascer e impediu um crime. Você sabia que a polícia existe para nos proteger?

Alguém noticiou as boas ações dos bombeiros, dos militares, dos policiais, dos políticos, dos líderes, dos professores, dos médicos, dos religiosos, das mulheres, dos homens, das crianças, dos adolescentes, dos idosos?

Gente. Somos gente e somos bons. Podemos ficar envenenados pela ganância, raiva e ignorância. Por outro lado, podemos nos curar com a compreensão clara e o discernimento correto.

Queremos o bem, o bem de todos os seres. Logo, temos de incluir e de nos unir — não para impedir, atrapalhar, ferir, queimar, mas para construir uma realidade que mostre todas as suas faces.

Sem fantasias, sem máscaras.

O carnaval passou.

Vamos deixar passar o carro fantasmagórico dos ódios e rancores.

Vamos cantar a possibilidade de cuidar e reparar sem parar o fluxo contínuo e puro das ações que beneficiem todos os seres.

Mãos em prece.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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