Revista Mandala
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Yoga e Harry Potter: uma combinação mágica

Uma das sagas literárias mais lidas da história, Harry Potter inspirou uma instrutora de yoga. Consegue imaginar o que aconteceu depois?

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É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias. Basta você lembrar de acender a luz.

Essa poderia ser uma frase encontrada em um livro litúrgico ou, por exemplo, no Hatha Yoga Pradipika, um dos guias mais clássicos para a prática avançada de yoga, escrito pelo yogi indiano Svātmārāma. Mas, na verdade, essa é uma citação do sétimo e último livro da saga britânica Harry Potter, que consagrou a escritora J. K. Rowling, tornou-se a história infanto-juvenil mais lida de todos os tempos e foi adaptada em oito filmes.

A mensagem é clara: se está escuro, acenda a luz e encontre paz. Não é isso que as pessoas procuram na prática de yoga? Pois prepare-se: a relação entre o conceito indiano e a história do menino que se descobre bruxo aos 11 anos não fica por aí. E você não precisa ser fã da saga para se encantar.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

“Nosso mundo está sempre evoluindo”, observa a instrutora de yoga Isabel Beltran. No Texas, Estados Unidos, ela começou a conduzir aulas inspiradas pelo mundo mágico da série de livros ingleses. A prática de yoga faz parte de sua vida diária há 11 anos e ela acredita que “integrar a cultura pop é uma ótima maneira de garantir o interesse na yoga”.

Ideias incríveis nascem como os mais belos feitiços

Tudo começou quando a publicitária e amiga de Isabel, Ximena Larkin, sugeriu que ela tentasse algo novo e original a cada mês em sua turma de yoga, para que os recém-chegados conhecessem a prática de forma mais atraente e estimulante. “Yoga com temática de Harry Potter é algo que simplesmente surgiu”, conta Ximena. “Fazia sentido transformar movimentos das varinhas em poses de yoga e feitiços em mantras”.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Ela dá o exemplo do Expecto Patronum, um feitiço muito poderoso de proteção cuja execução, de acordo com a história de J. K. Rowling, requer muita habilidade. Para lançá-lo, é preciso que o bruxo medite em torno de um pensamento inabalavelmente feliz, pois é da felicidade dessa lembrança que o feitiço consegue tirar forças para construir um escudo em torno de quem o ativa.

O feitiço Expecto Patronum é representado por um animal de proteção e cria um escudo de luz em torno do bruxo (Foto: Reprodução)
O feitiço Expecto Patronum é representado por um animal de proteção e cria um escudo de luz em torno do bruxo (Imagem: Reprodução)

Uma relação inesperada

“Há um grande elo entre Harry Potter e yoga”, afirma Isabel. “Os bruxos, assim como os iogues, se aproximam de suas práticas de forma consciente e com o mesmo foco no esforço e na tranquilidade (sthira e sukha). Fazemos isso sempre que usamos nosso prana e nosso corpo por meio das asanas e da nossa alma. Os três objetivos finais da yoga, conhecidos como Samaya (concentração, meditação e absorção) podem nos dar poderes terrestres e mágicos como os de Harry Potter e dos demais bruxos, a chave é praticar todos os dias”.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Acabou que a yoga com temática bruxa tornou-se um sucesso inesperado. Dezenas de veículos no mundo inteiro contaram sobre a iniciativa de Ximena e Isabel. E um dos motivos pelos quais Isabel acredita que sua didática empolgou tanto as pessoas é o afeto sincero que elas sentem pela saga. “Isso refletiu no que as pessoas estão vendo”, ela conta. “Não é simplesmente colocar o nome Harry Potter para termos uma aula. Nós levamos tempo construindo uma narrativa, prestamos atenção aos detalhes”.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Para a instrutora, as aulas estão cheias de pessoas dispostas a explorar yoga pela primeira vez em suas vidas porque a prática está sendo apresentada a elas de uma forma familiar. E Isabel chama a atenção para o efeito dessa nova abordagem no bem-estar de quem se envolve com suas aulas. “Comecei a ensinar yoga com a esperança de compartilhar seus poderes restauradores de cura com o mundo”, ela conta. “Eu não poderia ter imaginado que meu desejo se tornaria realidade desta maneira e sou grata por isso”.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Mas como, afinal, isso acontece?

Com a ajuda da irmã, Isabel criou as poses e os feitiços que servem de técnica e alegoria em suas aulas. Ela conta que a respiração e a concentração são fundamentais na prática, da mesma forma como são necessárias para se realizar um feitiço no mundo mágico de Harry Potter.

Foto: Alexa Gonzalez Wagner
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Além disso, ela observa que as varinhas podem ser utilizadas para que as pessoas se atentem à coluna vertebral, que é o canal de energia central do corpo. “As varinhas ajudam com o alinhamento adequado”, relata a professora. “Quando a energia na espinha está fluindo livremente, ou quando todos os sete chakras se alinham, é onde a magia acontece, unindo-se com a consciência pura, a meta do yoga caracterizada pela bem-aventurança e auto-realização”.

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Foto: Alexa Gonzalez Wagner

E tem mais: Isabel guia os alunos em viagens mágicas. Eles podem se sentar numa das cabines do Expresso de Hogwarts (Utkatasana), montar em uma vassoura (Chataranga Dandasana) e fazer transfigurações animais.

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Foto: Alexa Gonzalez Wagner

E como fica quem não entende nada da saga?

“A aula também é excelente para quem não é fã do Potter”, Isabel esclarece. “Como você não se divertiria praticando feitiços flutuantes e realizando transfigurações mágicas?”

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Foto: Alexa Gonzalez Wagner

Uma lição sobre a impermanência

Ximena conta que a turma se baseia principalmente no enredo do último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte. Esse número da saga é especial para ela por causa da icônica cena em que Harry, buscando destruir pedaços da alma de seu arqui-inimigo (chamadas horcruxes), visita o túmulo do pai e encontra na lápide:

O último inimigo a ser destruído é a morte.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Essa é uma passagem bíblica que fala sobre a dificuldade de aceitar a impermanência. Na história de J. K. Rowling, o maior bruxo das Trevas de todos os tempos, Voldemort, dividiu sua alma em vários pedaços e as escondeu em lugares diferentes para que nunca morresse por completo. No entanto, em sua última aventura, Harry está na missão de encontrar cada uma dessas partes e destruí-las, pois o mundo bruxo está agora sob o governo tirano de Voldemort.

A obsessão pelo poder e o medo profundo da morte desfiguraram o homem que tornou-se o maior bruxo das Trevas de todos os tempos (Imagem: Reprodução)
A obsessão pelo poder e o medo profundo da morte desfiguraram o homem que tornou-se o maior bruxo das Trevas de todos os tempos (Imagem: Reprodução)

Por isso o momento em que Harry precisa conhecer a morte para aceitá-la e, por fim, vencê-la, é muito importante. “A história que J. K. Rowling conta pede que os leitores vejam a morte a partir de uma perspectiva diferente”, Ximena comenta. “(A morte) não é algo para se temer. Afinal, é uma viagem que todos nós devemos fazer. Ao abraçá-la, amando-a se você quiser, você a ‘derruba’. Voldemort nunca conseguiu fazer isso, então ele criou as horcruxes e foi atormentado pelo medo e pela raiva”.

Para ela e Isabel, encarar a morte não é exatamente um problema. Mexicanas, elas contam que sua cultura comemora, no Dia dos Mortos, a travessia das pessoas que se foram. Na história de Harry, ele só é capaz de vencer o chamado Lorde das Trevas quando aceita a morte e, de fato, morre por aqueles que estão em risco, fazendo com que se concretize uma antiga profecia segundo a qual aquele que dominar a morte a vencerá e terá vida. Se você já leu a saga ou viu os filmes, entenderá o que isso significa. Se não, respeitamos seu direito ao mistério.

A aceitação da morte e o próprio ato de morrer conduzem Harry Potter ao desfecho dos sete livros de J. K. Rowling (Imagem: Repdorução)
A aceitação da morte e o próprio ato de morrer conduzem Harry Potter ao desfecho da icônica saga infanto-juvenil de J. K. Rowling (Imagem: Reprodução)

Muitas das analogias observadas por elas são realmente estimulantes. E o exemplo de criatividade e inovação que Isabel e Ximena trazem está inspirando o mundo inteiro. Como Isabel conclui, “com uma mente aberta e um coração aberto sempre haverá algo para todos desfrutarem!”.

Ah, não se esqueça: é Wingardium Leviôsa, não Wingardium Leviosá.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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